Sidemount ou dupla de cilindros em backmount, qual configuração usar no mergulho científico?

Durante a pandemia pipocaram lives de todos os tipos nas rede sociais, fenômeno este que enquanto era levado a sério e não tinha sido contaminado pela polarização da política partidária proporcionou uma infinidade de discussões interessantes, algumas curiosas e uma delas me chamou atenção, um grupo de mergulhadores velha guarda se juntou em uma live para defender o uso de duplas (dois cilindros levados às costas) nos mergulhos técnicos criticando veementemente a configuração em sidemount (cilindros armados lateralmente), movimento conservador contra uma configuração não tão nova, porém que vinha se tornando popular entre os mergulhadores técnicos e devido a sua versatilidade, até mesmo entre os mergulhadores recreativos. E esta não foi a única live sobre o tema, tiveram diversas lives comparando as duas configurações, sempre tendenciosa para um lado ou para o outro.

E foi engraçado quando um dos defensores do mergulho com duplas disse que a configuração em sidemount não devia ser utilizada no mergulho técnico porque ela não era redundante … oi? Como assim? Essa é justamente a maior das vantagens do sidemount já que cada cilindro e seu conjunto de reguladores compõem um sistema completo independente ao do outro cilindro e, portanto, consegue ser de fato redundante …

Na verdade, tentando ser justo, usar dupla ou mergulhar na configuração de sidemount, na maioria dos mergulhos tanto faz, é uma mera questão de gosto pessoal, de preferência. Se perguntar a qualquer mergulhador técnico que utiliza e defende qualquer das duas configurações eles vão te listar inúmeras vantagens da configuração da sua preferência e mais ainda as desvantagens da outra configuração, algumas delas distorcidas … mas acompanhando estas discussões a conclusão que se tira é que cada configuração tem suas vantagem e desvantagens.

Tentarei não ser muito tendencioso, mas já adianto que gostei muito de utilizar uma das configurações e apesar de não concordar com essa briguinha de melhor ou pior, tenho minha preferência e minhas opiniões se baseiam na prática que venho tendo com esta configuração … ou seja, tem grandes chances das minhas colocações soarem um pouco tendenciosas.

Eu utilizando a configuração sidemount durante um mergulho (Foto: Roberto Amarante Costa Pinto)

Bom, eu já tive a oportunidade de experimentar ambas as configurações e hoje, na maioria dos mergulhos, opto por mergulhar na configuração de sidemount, a facilidade em equipar e desequipar, a facilidade em manter o TRIM (equilíbrio) durante o mergulho, a possibilidade de remover um ou mesmo os dois cilindros em baixo d´água para passar por algum obstáculo e em seguida com a mesma facilidade recoloca-los, a facilidade em se controlar as torneiras dos cilindros utilizando múltiplos cilindros com múltiplos gases, o aumento significativo na segurança na prevenção de panes no sistema já que cada cilindro carrega consigo todo um sistema de reguladores e manômetros com mangueiras customizadas e totalmente independentes do(s) outro(s) cilindro(s).

Treinamento de abandono de cilindro utilizando a configuração sidemount (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

As desvantagens para mim estão principalmente relacionadas ao custo, mergulhar com a configuração de sidemount exige um equipamento específico, coletes próprios para a configuração, a necessidade de pelo menos dois jogos completos de reguladores e manômetro com mangueiras customizada e dos elásticos e cintas para os cilindros, além obviamente da necessidade em se fazer um curso específico para aprender a mergulhar na configuração.

Treinamento de remoção e recolocação de cilindro em baixo d´água utilizando sidemount (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Outra desvantagem está relacionada a uma vantagem, apesar de ser bastante útil e prático ter todo o controle dos cilindros facilmente acessados e a altura dos olhos, para que isto seja possível o posicionamento dos cilindros restringe o espaço na lateral do mergulhador … o que na verdade faz pouca diferença, mas é um fato e é uma crítica dos defensores do backmount com dupla.

Muitos pensam que é só comprar o equipamento, prender de qualquer forma os cilindros com mosquetões nos D-rings do colete, pegar seus reguladores e instrumentos do mergulho recreativo, fazer uns “armengues” e ir para a água, na maioria das vezes estes mergulhadores não conseguem manter os cilindros na horizontal e por isso não conseguem manter o equilíbrio em baixo d´água, não conhecem as técnicas da utilização da traqueia na porção inferior do colete e acabam ou considerando a configuração desajeitada ou passando bons “perrengues”, e por isso criticam a configuração.

A configuração em backmount (montado nas costas) com dupla de cilindros tem como principal vantagem, na minha opinião, o fato de que não precisa de um colete específico e que serve apenas para mergulhas com a configuração “X”, basta um colete com uma boa capacidade de lift, você pode tanto utilizar duplas em coletes do tipo jacket (eu não recomendo, mas tem quem use) como utilizar em coletes do tipo plate +“asa” e esse mesmo colete poder ser utilizado tanto no mergulho recreativo como no caso do plate + “asa”, no mergulho técnico e as principais desvantagens o fato desta configuração não necessariamente fornecer uma redundância real de gases já que na maioria das vezes elas são interligadas por um manifold e atuam meramente uma como uma extensão da capacidade da outra e nesse caso uma pane neste manifold compromete todo o sistema, e a impossibilidade em se abandonar um ou mais cilindros em caso de problema ou necessidade.

Mergulhador utilizando sistema de duplas na configuração backmount (Foto: Roberto Amarante Costa Pinto)

O que eu considero uma vantagem do uso de duplas e que a configuração no que diz respeito ao posicionamento dos cilindros, traqueias do colete e mangueiras não difere muito da configuração do mergulho recreativo (salvo alguns pequenos detalhes) e todos os mergulhadores certificados passaram pelo curso básico onde já aprenderam a manusear o equipamento, sendo portanto muito mais fácil se adaptar, não precisa necessariamente um curso só para isso como é preciso para utilizar um equipamento na configuração de sidemount.

Da mesma forma, que para o sidemount, o mergulho com duplas não seve ser feito na aventura, sem um conhecimento prévio, sem os reguladores adequados, etc.

Além das vantagens e desvantagens de cada configuração, o movimento anti-sidemount (acabei de inventar o termo) criou algumas lendas em relação a configuração lateral, há por exemplo quem afirme que os coletes de sidemount, principalmente os mais compactos, por terem uma célula menor exigem mais lastreamento que no mergulho recrativo convencional, porém isso é falso por dois motivos, o posicionamento do corpo e das pernas utilizando essa configuração possibilitam maior equilíbrio e facilidade de controlar a flutuabilidade com a respiração compensando o tamanho da célula, e segundo porque o mergulho na configuração de sidemount exige um sistema completo de reguladores, manômetros e mangueiras customizadas para cada cilindro que você leva consigo e isto pesa … neste caso, se você pretende mergulhar com apenas um cilindro lateral, o lastreamento deve ser o mesmo ou bem próximo ao já utilizado no mergulho recreativo utilizando cilindro jacket com um cilindro em backmount, já para o mergulho com mais de um cilindro recomenda-se a retirada de uma certa quantidade de lastro (essa quantidade depende de pessoa pra pessoa) para cada cilindro extra.

Mergulhador científico aplicando técnica de video transecto utilizando o equipamento de mergulho na configuração sidemount (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Mas vamos ao que interessa para nós, o mergulho científico, qual a melhor configuração para fazer este tipo de mergulho?

Bom, seguem minhas opiniões quanto ao tema:

Ao falar de mergulho científico temos que ter mente que se tratam de mergulhos com peculiaridades que não estão contempladas para o mergulho recreativo e em muitos casos também para os mergulhos técnicos, uma destas peculiaridades é a necessidade em se levar muitas “tralhas”, ferramentas e equipamentos que podem ser bem pesados ou necessitar de espaço para que sejam carregadas, neste quesito ambas as configurações trazem vantagens e desvantagens … o primeiro ponto é, independente da configuração, escolher um colete que tenha uma capacidade de lift adequada … no que diz respeito ao sidemount, a configuração possibilita utilizar D-rings bem acessíveis na porção inferior dos coletes para pendurar as tralhas sem que elas se tornem pontos de enrosco, porém ferramentas muito grandes vão atrapalhar a natação, já o uso de duplas mantem as laterais e a região frontal livres para se prender as “tralhas”, porém tem que tomar cuidado para não virar uma árvore de Natal cheia de penduricalhos, isso aumenta o arrasto influenciando no seu consumo de gases, além de representar um risco de enrosco a depender do local do mergulho.

Outra peculiaridade do mergulho científico é o fato de que quase sempre o mergulho científico é realizado nos limites não descompressivos, em múltiplos mergulhos diários com intervalos mínimos de superfície favorecendo a saturação de gases no tecido. O uso da configuração em sidemount permite levar consigo dois cilindros com gases distintos, sendo um gás de fundo armado em uma das laterais e um gás com uma mistura com maior concentração de Oxigênio para a subida e para o cumprimento da parada de segurança ou mesmo para pagar uma eventual parada de descompressão. No sistema de duplas você também pode levar um outro cilindro com gás diferente, porém neste caso teria que ser um terceiro cilindro e que seria armado como cilindro stage em uma das laterais, esta configuração é pouco ergonômica e interfere no rendimento do mergulho.

Por fim, como todo mergulho científico, independente do número de mergulhadores na água é um mergulho solo, o ideal e o indicado é que todo mergulhador solo tenha todos os seus equipamentos em redundância e neste caso a única configuração onde sempre se terá uma redundância de todo o sistema de respiração em baixo d´água é a sidemount. Existem os casos em que a dupla de cilindros em backmount não esteja interligada e seja utilizada como sistemas totalmente independentes, neste caso a redundância é a mesma … mas apenas nestes casos.

Quem está acostumado a mergulhar com duplas em backmount para a coleta de dados científicos e tem se dedicado a estudar o tema pode ter opiniões complementares que resultem em novos pontos que podem vir a demonstrar que esta configuração traz mais vantagens que a de sidemount e acho importante este tio de diálogo, de discussão, ajuda os mergulhadores a compreender mais o assunto facilitando com que tomem a decisão que mais se adequa a sua realidade, a mais eficiente e o mais importante, a mais segura … portanto, se você é um destes mergulhadores, comente nesta postagem, contribua …

About Rodrigo Maia-Nogueira

Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância. Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições. Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI. Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

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