As raias de Salvador e da baía de Todos os Santos

As raias estão entre os animais mais ameaçados do mundo, 36% das espécies de raias se encontram sob algum grau de ameaça em todo o mundo, considerando as espécies conhecidas para as águas brasileiras acredita-se que esse percentual esteja em torno de 30%, porém boa parte das espécies carecem ainda de informações e análises quanto ao seu status e por isso espécies consideradas ameaçadas em nível global e que provavelmente estão ameaçadas em nível nacional não se encontram protegidas e são ainda alvos da pesca.

No Brasil existem aproximadamente 70 espécies de raias, das quais pelo menos 20 tem registros para as águas soteropolitanas, incluindo a baía de Todos os Santos e a costa Atlântica da cidade (incluindo registros históricos), dentre as quais as espécies de espadarte (Pristis spp.), classificadas como Criticamente Ameaçadas no Brasil são consideradas extintas na região, a raia-viola-brasileira (Pseudobatos horkelii) e a raia-de-duas-cabeças (Rhinoptera brasiliensis) estão também classificadas como Criticamente Ameaçadas, e a raia-manta-gigante (Manta birostris), a raia-manta-boca-de-gaveta (Mobula japanica) e a raia-manta-aba-de-foice (Mobula tarapacana) se encontram classificadas como Vulneráveis à extinção.

Interagindo com os mergulhadores desde janeiro de 2023, no litoral paulista o Prof. Dr. Fábio Motta, a MsC. Luiza Chelotti e outros pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) com apoio institucional do Instituto Linha D´Água criaram o projeto “Viu raia?”, uma iniciativa que envolve o engajamento dos mergulhadores recreativos através da ciência cidadã visando através dos relatos e das fotografias feitas por estes mergulhadores identificar quais raias são mais comuns nos pontos de mergulho, quando elas mais aparecem e com qual frequência elas são avistadas. Além de capacitá-los para que possam eles próprios identificarem as diferentes espécies de raia.

A partir da análise dos dados obtidos com o auxílio dos mergulhadores recreativos será possível traçar estratégias que visem reduzir os esforços de pesca sobre estes animais através da contribuição do mercado de mergulho de recreação e turismo (mergulhadores, operadores, certificadoras, lojas, marcas), do poder público e de potenciais interessados que seroa revertido na sensibilização e na redução do impacto econômico decorrentes das medidas protetivas às raias sobre a pesca artesanal a exemplo do que já vem sendo feito com o projeto “Mar sem Lixo” com os pescadores do litoral paulista.

Raia-manta-gigante (Manta birostris) fotografada no recife dos Cascos, baía de Todos os Santos, Bahia (Foto: Fagner Rodrigues)

As raias que geralmente não estão entre os animais comumente registradas nos mergulhos realizados em Salvador, coincidentemente, neste verão, fizeram algumas aparições, dentre elas uma raia-manta-gigante (Manta birostris) que deu o ar da graça durante um mergulho no recife da Caramuanas, a 11 milhas náuticas ao sul da baía de Todos os Santos, mesmo local onde duas semanas antes uma raia-manteiga (Hypanus berthalutzae) veio do mar aberto para dentro dos labirintos nos recifes e passeou entre os mergulhadores.

Raia-mariquita (Hypanus marianae), também conhecida por raia-de-olho-grande ou raia-de-fogo fotografada no naufrágio do Blackadder, Parque Natural Municipal da Cidade Baixa, baía de Todos os Santos, Salvador, Bahia (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

A pequena e endêmica raia-mariquita (Hypanus marianae) é a mais comum nos mergulhos e parece preferir o trecho da baía entre a praia da Boa Viagem, mais especificamente nos arredores do naufrágio do Blackadder (Parque Natural Municipal Marinho da Cidade Baixa), e a região entre o banco da Panela, o Quebra-mar Norte e o Molhe Sul.

Raia-viola (Pseudobatos percellens) fotografada no naufrágio do Blackadder, Parque Natural Municipal da Cidade Baixa, baía de Todos os Santos, Salvador, Bahia (Foto: Roberto Amarante Costa Pinto)

A raia-viola (Pseudobatos percellens) vez ou outra dá as caras e se mostra aos mergulhadores nos arredores do naufrágio do Blackadder no Parque Natural Municipal Marinho da Cidade Baixa.

Raia treme-treme (Narcine brasiliensis) fotografada na praia do Porto da Barra, Salvador, Bahia (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

A raia treme-treme (Narcine brasiliensis) pode ser observada em praticamente todos os pontos rasos de mergulho, desde as áreas de fundo de areia nos arredores do naufrágio do Maraldi no Parque Natural Municipal Marinho da Barra até as praias do interior da baía de Todos os Santos.

A raia-chita (Aetobatus narinari) já foi mais observada por mergulhadores em águas soteropolitanas quando o banco de Santo Antônio ainda não tinha engolido o Cavo Artemide, e hoje, ocasionalmente é vista em pontos mais profundos como na falha do Cretino, especialmente por aqueles mergulhadores que são os primeiros a descer.

Raia-branca (Hypanus guttatus), também conhecida por raia-focinhuda ou raia-lixo, fotografada no interior da baía de Todos os Santos, Salvador, Bahia (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Na costa Atlântica da cidade, nos locais de fundo arenoso inconsolidado as raias manteiga (Hypanus berthalutzae) e branca (Hypanus guttatus) vez ou outra dão as caras.

Raia-manteiga (Hypanus berthalutzae), também conhecida por raia-prego, fotografada no recife dos Cascos, baía de Todos os Santos, Bahia (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

As raias não estão entre os peixes mais comuns nos mergulhos na costa Atlântica de Salvador e na baía de Todos os Santos, porém sempre estes encontros são considerados como especiais, viram o assunto dos diversos grupos de mergulho locais nas redes sociais, as fotos, mesmo que não fiquem excelentes são logo postadas e divulgadas. É sempre fantástico encontrar estes magníficos animais!!

Você já viu uma raia nos mergulhos que fez na costa de Salvador e na baía de Todos os Santos? Comente?.. Conte como foi esse encontro … Qual a raia que você viu? … Quando foi esta avistagem? … Em qual ponto de mergulho e com qual operadora de mergulho?

 

About Rodrigo Maia-Nogueira

Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância. Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições. Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI. Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

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