Peixes-leão foram registrados na costa do Piauí e do Ceará

Nos meses entre setembro e dezembro de 2020 ocorreram os primeiros registros do peixe-leão (Pterois volitans) em Fernando de Noronha e no litoral Norte do Brasil (Amapá, Pará e Maranhão) e desde agosto de 2021 os registros e a captura deste peixe se intensificaram nestes locais (mais de 30 indivíduos foram capturados em Fernando de Noronha até então) e neste último final de semana alguns exemplares adultos de peixe-leão foram capturados por pescadores submarinos no litoral dos estados do Ceará e do Piauí.

Stories postados no final de semana alertando para o registro do peixe-leão na costa do Ceará (Fontes: Erika Beux e Tec Dive CE)

O peixe-leão é um predador voraz que não é reconhecido por suas presas e por potenciais predadores fora da sua área de ocorrência natural. Os raros registros de predação sobre estes peixes no Atlântico por tubarões e outros predadores de grande porte não são suficientes para impedir a sua proliferação e consequente invasão.

O peixe-leão é um peixe que atinge a maturidade sexual muito cedo em comparação a outras espécies do mesmo porte e um único peixe-leão é capaz de postar mais de 12.000 ovos por mês (em alguns casos até 30.000 ovos) que levam por volta de 26 dias ao sabor das correntes para eclodir.

Como o peixe-leão não sofre predação em nossas águas ele não costuma fugir na presença de potenciais predadores, nem mesmo na presença do homem que consegue praticamente encostar no peixe ao se aproximar sem que ele recue, comportamento que reduz o estado de alerta possibilitando mais eficiência na predação.

O peixe-leão é um predador voraz, um excelente caçador, voraz e que possui um grande apetite, sendo capaz de comer até 20 peixes em meia hora incluindo peixes com até 70% do seu comprimento. No Atlântico a dieta do peixe-leão é baseada, mas não limitada a peixes de pequeno e médio porte incluindo as espécies limpadoras, espécies de interesse comercial (alvo da pesca) ou ameaçadas de extinção (como os budiões), além de crustáceos (como as lagostas, os siris e os caranguejos) que são a base da cadeia trófica dos oceanos. Devido a sua eficiência como caçador e ao fato de não necessitar manter o estado de alerta constante o peixe-leão compete com vantagens pelo alimento com espécies nativas.

“Em estudos realizados, em uma área invadida um único peixe-leão foi capaz de reduzir o recrutamento de 79% das espécies nativas do recife.”

E AGORA QUE ELE JÁ CHEGOU NO LITORAL BRASILEIRO O QUE PODE SER FEITO?

Eliminar o peixe-leão já não é uma realidade para nós, eles desenvolveram uma plasticidade muito grande e habitam desde águas rasas até águas profundas em torno de 100m, são extremamente prolíficos e não tem predadores naturais. Apesar da pesca quando realizada de predatória (em diversas modalidades) ser responsável pela redução de um número grande de estoques pesqueiros e levá-los até a beira da extinção, geralmente isto se dá com espécies como menor eficiência reprodutiva, maturidade tardia e baixo índice de proles, diferente do peixe-leão.

Apesar de não sermos capazes de eliminá-lo podemos de alguma forma tentar controlá-lo e com isso reduzir os impactos nos nossos recifes e segundo a FWC (Florida Fish and Wildlife Conservation Commission) a coleta manual (seja utilizando redinhas ou arpões) de peixes-leão por pescadores submarinos e mergulhadores recreativos é o melhor método para controlar a sua invasão e com isso minimizar os impactos indesejados.

Porém existem dois pontos que precisam ser levados em conta, um deles é o fato do peixe-leão possui toxinas em alguns de seus espinhos dorsais e anais, o que exige um mínimo de cuidado e de qualificação, e o outro é que no Brasil a captura de pescados por mergulhador recreativo utilizando equipamento de mergulho autônomo ou dependente (cilindros e compressores) é proibida mesmo em se tratando de uma ação para o combate a um organismo invasor.

ELE É VENENOSO? É ARRISCADO CONSUMÍ-LO?

Sim, o peixe-leão possui toxina na extremidade de alguns dos seus espinhos dorsais e em alguns dos espinhos anais, porém esta toxina é produzida na ranhura destes espinhos sem nenhum contato com a carne e, portanto, é superseguro consumir a carne do peixe-leão.

O cuidado que se deve ter é no manuseio do peixe para o seu preparo, antes mesmo de descamar e eviscerar o peixe os espinhos precisam ser cortados, o que pode ser feito com facas normais de cozinha ou mesmo com a ajuda de tesouras.

ENTÃO SE EU ENCONTRAR UM PEIXE-LEÃO DEVO CAPTURÁ-LO?

Depende, se você for um pescador submarino, ele passa a ser uma boa opção, a remoção de espécies invasoras é importante e quem já experimentou diz que a carne do peixe-leão é muito saborosa, porém é importante tomar muito cuidado para não sofrer um acidente com os espinhos.

Já se você for um mergulhador recreativo, especialmente se estiver mergulhando com equipamento SCUBA ou mesmo utilizando um compressor de mergulho, a princípio, sem um treinamento adequado e sem uma licença de coleta emitida por um órgão competente evite captura-lo deixe o animal onde ele foi registrado e comunique o órgão ambiental local ou algum grupo de pesquisa da sua região que esteja apto a fazer a coleta do exemplar, ou mesmo ao staff das operadoras de mergulho, eles se não estiverem aptos a coletar saberão quem informar. Como o peixe-leão é um peixe territorialista, uma vez instalado em um local ele dificilmente sairá e, portanto, você relatando cuidadosamente o local onde ele foi observado ele facilmente será encontrado e removido.

ELE COM CERTEZA VAI CHEGAR NA BAHIA? SE SIM, QUANDO ELE VAI CHEGAR?

É difícil afirmar quando, mas sim, ao que tudo indica ele vai chegar e não deve demorar pois o avanço tem sido rápido. À medida que eles vão se estabelecendo em algumas localidades a suas desovas vão aumentando e dispersando nas correntes atingindo novas áreas. Todo o litoral Norte do país já tem exemplares, além de Fernando de Noronha, passar e se estabelecer na costa do Rio Grande do Norte, da Paraíba, de Pernambuco, de Alagoas, de Sergipe e da Bahia é só uma questão de tempo.


Mais informações em:

peixeleao.ecobiogeo.com

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Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância.
Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições.
Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI.
Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

About Rodrigo Maia-Nogueira

Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância. Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições. Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI. Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

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