O impacto do descarte inadequado das máscaras faciais sobre a biota aquática

As máscaras faciais consistem, assim como a vacina e o isolamento social adequado em importantes e indispensáveis ferramentas para conter o SARS-CoV-2, vírus causador do COVID-19, porém não apenas estas máscaras precisam ser utilizadas de forma correta, cobrindo totalmente a boca e as narinas para que tenham a eficiência esperada como devem ser descartadas corretamente, tanto para evitar que promovam novos contágios como para evitar que impliquem em danos ao meio ambiente.

Desde o início da pandemia do COVID-19 que impulsionou e incrementou significativamente o uso das máscaras faciais em todo o mundo que animais têm sido registrados emaranhados em máscaras descartadas, especialmente nos ambientes aquáticos.

Um caso emblemático ocorreu no dia 9 de setembro de 2020 quando um pinguim-de-Magalhães (Spheniscus magellanicus) foi encontrado morto em São Sebastião, litoral de São Paulo e na necrópsia os pesquisadores do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS) do Instituto Argonauta, de Ubatuba, encontraram no conteúdo estomacal do pinguim uma máscara facial do tipo N95. A notícia do registro da máscara no estômago do pinguim rapidamente correu o mundo sendo divulgada nos principais veículos de comunicação de diversos países da Europa e das Américas.

Pinguim-de-Magalhães (Spheniscus magellanicus) encontrado morto no litoral de São Paulo com uma máscara facial de tecido no estômago (Fonte: revistacenarium.com.br)

Desde então diversos outros animais têm sido encontrados mortos ou emaranhados em máscaras faciais em todo o mundo.

Gaivota encontrada na Inglaterra com uma máscara facial descartável emaranhada nas patas (Fonte: conexãoplaneta.com.br)

O caso mais recente ocorreu em 2 de fevereiro deste ano quando um macho de raia-viola (Pseudobatos sp.), espécie ameaçada, foi encontrada morta no Guarujá, litoral de São Paulo, com uma máscara de pano presa pelos elásticos no focinho provocando lesões graves que além de dificultar a sua natação  impossibilitou a raia de se alimentar.

Raia-viola (Pseudobatos sp.) encontrada morta emaranhada em uma máscara facial de pano no litoral de São Paulo (Fonte: G1.globo.com)

As máscaras são fundamentais no combate ao COVID-19 e por isso não é possível e bem recomendável deixar de utilizá-la, porém alguns cuidados básicos (e simples) podem ser tomados para evitar que as máscaras descartadas provoquem mais acidentes. Considerando que inevitavelmente, mesmo que descartada no lixo doméstico e esse lixo sendo coletado pelas empresas de coleta de lixo e limpeza pública ainda pode chegar no mar ou em outros ambientes naturais.

Uma vez descartada no ambiente natural, estima-se por conta da sua composição que uma máscara descartável que uma vez utilizada passe a ser considerada um lixo tóxico pode demorar até 450 anos para se decompor completamente e durante quase todo este tempo permanece oferecendo riscos aos animais.

A melhor forma de descartar uma máscara é primeiro cortando os seus elásticos e em seguida armazená-la em uma caixa ou saco plástico, acumulando-as até que o recipiente esteja cheio e então direcioná-lo para a coleta urbana. Desta forma as máscaras ficam menos acessíveis a animais e pessoas que possam vir a manipular o lixo e mesmo que isso ocorra e as máscaras venham a parar nas praias ou em outros ambientes naturais, com os elásticos cortados a chance de acidentes com animais reduzem consideravelmente.

Alguns sugerem utilizar máscaras de pano no lugar das máscaras descartáveis já que elas podem ser lavadas e reaproveitadas, levando mais tempo até que se tornem resíduos, porém estas máscaras geralmente são bem menos eficientes que as máscaras descartáveis no combate ao COVID-19. De qualquer forma, a melhor maneira de reduzir estes danos é combatendo corretamente o vírus, utilizando e descartando as máscaras faciais corretamente, mantendo o isolamento social adequadamente e se vacinando, somente desta forma seria prudente reduzir o uso deste aparato de segurança e com isto reduzir os danos do seu descarte.

 

FONTES

ASCOM ARGONAUTA. 2020. Caso do pinguim que engoliu uma máscara gera repercussão internacional e reacende discussão sobre impactos do lixo nos animais marinhos. Instituto Argonauta para Conservação Costeira e Marinha [LINK]

Camargo, S. 2020. Gaivota com máscara presa nas patas é resgatada na Inglaterra. Conexão Planeta: inspiração para a ação [LINK]

CENARIUM. 2020. Pinguim morre após ingerir máscara descartada por banhistas em praia brasileira. Revista Cenarium: da Amazônia para o Mundo [LINK]

Rossi, M. 2022. Raia é encontrada morta e presa a máscara facial de pano no litoral de SP.  G1 [LINK]

Vicente, M.K. 2021. Máscaras de proteção contra Covid-19 precisam ser descartadas de forma correta. Jornal NH [LINK]

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Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância.
Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições.
Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI.
Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

About Rodrigo Maia-Nogueira

Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância. Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições. Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI. Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

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