O Coral-azul e o Coral-marrom, dois corais bioinvasores na costa soteropolitana

Em um mergulho realizado na praia do Porto da Barra por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) no ano de 2018 algumas colônias de duas espécies diferentes de corais moles, espécies não nativas do litoral brasileiro chamaram a atenção e foram então registradas.

Um ano antes, em 2017, espécies semelhantes em coloração e morfologia foram encontradas em outra localidade no litoral do Rio de Janeiro, sudeste do Brasil, e inicialmente os cientistas da UFBA e da UFAL acreditaram que se tratavam das mesmas espécies, as já relativamente abundantes colônias de corais de pólipos azuis que lembram cristais de gelo ou alguma flor rendada muito parecida com o coral conhecido por Xênia-azul (Sansibia sp.) e a outra espécie registrada tinha tentáculos maiores, uma coloração marrom-esverdeada e era bem menos abundante, a qual acreditou-se que se tratava do Coral-mole-de-Okinawa (Clavularia cf. viridis) ambas as espécies são relativamente comuns no mercado ornamental.

Apesar da suspeita inicial de que em Salvador se tratavam das mesmas espécies identificadas para o Rio de Janeiro a comunidade científica notou não ficou parada e através de análises mais detalhadas incluindo análises genéticas descobriu-se em fim que a identificação preliminar de ambas as espécies na verdade estava equivocada, o coral azul registrado em Salvador não se trata da Xênia-azul do gênero Sansibia registrado para o Rio de Janeiro mas sim de uma espécie de coral mole do gênero Sarchothelia sp. que foi então batizada simplesmente de Coral-azul e a outra espécie encontrada em Salvador também não se trata do Coral-mole-de Okinawa (Clavularia cf. viridis) também registrado para o Rio de Janeiro mas sim do coral Briareum hamrum que foi batizado por Coral-marrom. A correta identificação taxonômica foi publicada hoje no Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdon em um artigo de autoria da Dra. Natália Menezes e colaboradores (mais detalhes ao final deste artigo)

Da mesma forma que o Xênia-azul e o Coral-mole-de-Okinawa, as espécies que foram chamadas de Coral-azul e Coral-marrom são muito difundidas e amplamente comercializadas pelo mercado ornamental.

Colônias do Coral-azul (Sarcothelia sp.) no Parque Natural Municipal Marinho da Barra (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

O Coral-azul

  • Filo: Cnidaria
  • Classe: Anthozoa
  • Subclasse: Octocorallia
  • Ordem: Alcyonacea
  • Subordem: Alcyoniina
  • Família: Xeniidae

Coral-azul (Sarcothelia sp.)

Colônia do Coral-azul (Sarcothelia sp.) no Parque Natural Municipal Marinho da Barra (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Os corais do gênero Sarcothelia, como todos os exemplares da família Xeniidae formam verdadeiros e extensos tapetes dominando vastas áreas graças à sua capacidade de se reproduzir assexuadamente, e gerar novas colônias que se desenvolvem através de pequenos fragmentos. São capazes de em um curto espaço de tempo colonizar e cobrir dezenas a centenas de metros quadrados de um recife, inclusive se sobrepondo e sufocando recrutas de outras espécies de corais. O problema é que diferentemente dos corais duros nativos, estes corais não produzem uma estrutura rígida de carbonato de cálcio e, portanto, não atuam como espécies construtoras dos recifes.

Colônia do Coral-azul (Sarcothelia sp.) competindo com o Coral-estrela (Siderastrea stelatta) nativo no Parque Natural Municipal Marinho da Barra (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Em 2018 quando foi descoberto colônias esparsas do Coral-azul ocupavam um trecho da praia do Porto da Barra de aproximadamente 5.000m² e hoje além do adensamento de colônias já ser bem maior, com base no registro mais distante desse ponto ele já se dispersou por um trecho de mais de 650m em direção ao Farol da Barra e levando em consideração os pontos onde eu já observei colônias deste coral, como a enseada do Espanhol, o reloginho, as pedras paralelas ao costão da Barra e as estruturas dos naufrágios do SS Maraldi, e mais recentemente do Germania e do Bretagne, apenas desenhando uma poligonal no Google Earth ligando estes pontos a área ocupada por este coral que antes era limitada aos 5.000m² do pequeno trecho do Porto da Barra hoje pode representar mais de 58.000m².

Com relação a sua origem o gênero Sarcothelia encontra-se representado hoje por apenas uma espécie descrita, o Coral-mole-Havaiano (Sarcothelia edmonsoni) e a sua distribuição, como o nome sugere é originária deste arquipélago nas águas do Pacífico, e a variação encontrada no Brasil se refere a uma espécie ainda sendo descrita e pouquíssimo estudada, porém muito comum no mercado ornamental Norte Americano.

Colônias do Coral-azul (Sarcothelia sp.) se aproximando de uma colônia do Coral-mole-brasileiro (Neospongodes atlanticus) no Parque Natural Municipal Marinho da Barra (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Associando este fato à informação de que corais semelhantes são facilmente encontrados à venda em lojas de peixes e outros organismos marinhos ornamentais, sejam online ou mesmo em lojas físicas, inclusive no Brasil, acredita-se que algum aquarista desinformado ou irresponsável tenha tido problemas com a proliferação excessiva desse coral em seu aquário e resolveu “soltar” o “bichinho” no mar, provavelmente na praia do Porto da Barra onde as primeiras colônias começaram a ser registradas.

Conversando com alguns mantenedores de aquários com espécies de coral mole (os quais são conhecidos por mini reefs) é unanime a opinião de que estes corais (família Xeniidae) são uma praga e que basta uma pequena muda para em pouco tempo ocupar todo o aquário e sufocar até matar as outras espécies de coral do mini reef.

Colônia do Coral-azul (Sarcothelia sp.) no Parque Natural Municipal Marinho da Barra (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

O Coral-marrom

  • Filo: Cnidaria
  • Classe: Anthozoa
  • Subclasse: Octocorallia
  • Ordem: Alcyonacea
  • Subordem: Scleraxonia
  • Família: Briareidae

Coral-marrom (Briareum hamrum)

Colônia do Coral-marrom (Briareum hamrum) na Praia do Porto da Barra (Foto: José Anchieta Cintra Costa Nunes)

O Coral-marrom inicialmente descrito como sendo do gênero Clavularia e portanto bem semelhante aos corais desse gênero, como o Coral-mole-de-Okinawa (Clavulaira cf. viridis) justificando a confusão inicia na identificação da espécie invasora no Porto da barra.

Apesar de formar tapetes como o Coral-azul, o Coral-marrom costuma ocupar áreas menos vastas e não tem a mesma eficiência de colonização do Coral-azul, talvez por isso o seu registro nas águas do Porto da Barra são bem raros e também não foi observado ainda em outras localidades próximas como é o caso do Coral-azul que já alcançou estruturas recifais distantes mais de 650m do ponto de origem da sua invasão.

Detalhes de uma colônia do Coral-marrom na Praia da Boa Viagem, Parque Marinho da Cidade Baixa (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

O Coral-marrom originalmente é encontrado no Mar Vermelho, na costa leste africana, no mar de Oman, no mar da Arábia e no golfo Pérsico e também é muito popular nos mini reefs apesar de não ter sido relatado pelos aquaristas como uma espécie problemática. Provavelmente este coral foi introduzido na praia do Porto da Barra no mesmo momento em que foi introduzido o Coral-azul.

Uma colônia de coral-marrom, aparentemente da mesma espécie registrada no Porto da Barra vem sendo monitorada desde o final de 2019 no recife da Boa Viagem, área em que está sendo implantado o Parque Marinho da Cidade Baixa, toda a área ao redor é vasculhada mais de uma vez por mês e não foram registradas outras colônias demonstrando não ser tão boa invasora como o coral-azul, porém a colônia aos poucos vem crescendo e se fragmentada pode acabar colonizando outras áreas e saindo do controle.

Colônia do Coral-marrom na Praia da Boa Viagem, Parque Marinho da Cidade Baixa (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

 

Uma poliqueta-de-fogo (Hermodice carunculata). natural predadora de corais passeando por sobre colônias do Coral-azul (Sarcothelia sp.) aparentemente ignorando que se trata de uma potencial presa para ela no Parque Natural Municipal Marinho da Barra (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Porque estes belíssimos animais são na verdade um problema

A presença de corais azooxantelados como os Corais-sol (Tubastraea spp.) e agora de corais mole com grande capacidade de colonização como o Coral-azul (Sarcothelia sp.) eoutros corais-mole da família Xeniidae em um ambiente onde prevalecem espécies de corais de crescimento lento, porém construtoras de recifes, associado aos fenômenos estressores que vem intensificando os eventos de branqueamento podem modificar drasticamente, em pouco tempo, os recifes de coral como conhecemos no Atlântico sul.

Até então conhecemos os impactos e os prejuízos associados a outros ambientes com menor complexidade, porém agora estas espécies invasoras estão colonizando as áreas onde se concentram a maioria dos recifes de coral brasileiros, o Nordeste do Brasil.

Essa mudança drástica pode afetar peixes, tartarugas e outras espécies recifais que utilizam os se alimentam das espécies nativas alterando completamente a estrutura das comunidades nesses ambientes trazendo sérios prejuízos não só ambientais como socioeconômicos também uma vez que estas mudanças podem ter sérias implicações nos estoque pesqueiro e em outros recursos marinhos.

Colônia do Coral-azul (Sarcothelia sp.) competindo com o zoantideo Baba-de-boi (Palythoa caribaeorum) no Parque Natural Municipal Marinho da Barra (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

O que fazer agora?

Ao que tudo indica erradicar não é uma tarefa fácil, e nem se sabe se é uma tarefa possível, se algo tivesse sido feito no início da bioinvasão talvez a erradicação fosse possível, mas a medida que o tempo passa a probabilidade reduz e pode até mesmo ser impossível, apesar de estudos recentes indicar que esforços concentrados podem trazer bons resultados nesse sentido.

Precisamos ter ferramentas que permitam monitorar e promover uma ação imediata visando a erradicação, sem burocracias e entraves assim que uma espécie invasora seja registrada.

Precisamos ter um pouco mais de consciência e não permitir que novas invasões ocorram, se você é mantenedor de um mini reef, quando enjoar ou desistir do seu aquário por qualquer motivo, não solte os exemplares no mar, nem mesmo as espécies nativas pois podem carregar com elas problemas diversos e trazer bastante prejuízo. Como podemos ver, mesmo uma pequena muda de um aparentemente inofensivo e frágil coral mole pode causar um estrago gigantesco.

É importante que o foco principal seja o combate, a erradicação e não o monitoramento e controle visando realizar experimentos, tanto o coral-sol quanto o coral-azul na baía de Todos os Santos são exemplos de que o controle não está exatamente nas nossas mãos e que experimentos trazem resultados interessantes mas pouco efetivos no que diz respeito ao combate aos bioinvasores.

No que diz respeito ao coral-azul, ainda no início da invasão pesquisadores quiseram cobrir e sufocar as colônias invasoras, porém esta medida atingiria também os organismos no entorno destes corais e outros pesquisadores foram contra a medida visando preservar os organismos nativos que supostamente seriam atingidos, porém em pouco tempo os corais-azuis avançaram sobre estes organismos e os sufocaram, ocupando o espaço antes ocupado por eles e foram além. Ou seja, os mesmos organismos que foram poupados não se realizando a ação emergencial já não existem e o coral-azul ocupa hoje uma área infinitamente maior que a área que ocupava à época sugerindo que a escolha foi equivocada e o resultado foi que a perda de organismos nativos foi ainda maior que se tivesse sido implementado o plano de sufocar as espécies invasoras.

A invasão do coral-azul e do coral-sol na baía de Todos os Santos já é intensa, o coral-azul ocupa uma área enorme e o coral-sol está distribuído por toda a baía em mais de 40 pontos conhecidos atualmente, qualquer ação já se torna muito difícil. Nestes casos precisamos agora cobrar dos órgãos ambientais que seja feito pelo menos o monitoramento e o controle destas invasões de espécies exóticas, ou se possível, que seja implementado um programa de combate.

Colônia do Coral-azul (Sarcothelia sp.) sufocando esponjas no Parque Natural Municipal Marinho da Barra (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Sejamos responsáveis, sejamos vigilantes, a responsabilidade é nossa!

Colônias do Coral-azul (Sarcothelia sp.) no Parque Natural Municipal Marinho da Barra (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Apesar de aparentemente não terem tanta afinidade com substrato artificial como outras espécies invasoras, não tendo mais espaço colônias do Coral-azul (Sarcothelia sp.) infestam a caldeira e outras estruturas do naufrágio do Maraldi no Parque Natural Municipal Marinho da Barra (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Apesar de aparentemente não terem tanta afinidade com substrato artificial como outras espécies invasoras, não tendo mais espaço colônias do Coral-azul (Sarcothelia sp.) infestam a caldeira e outras estruturas do naufrágio do Maraldi no Parque Natural Municipal Marinho da Barra (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

De um lado uma colônia do zoantideo nativo Baba-de-boi (Palythoa caribaeorum) resiste e do outro uma colônia do Coral-azul (Sarcothelia sp.) avança até que substitua por completo o organismo nativo no Parque Natural Municipal Marinho da Barra (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

FONTE

Foi publicado hoje no periódico Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdon o artigo da Dra. Natália Menezes e colaboradores intitulado “New non-native ornamental octocorals threatening a South-west Atlantic Reef” com o registro oficial e a divulgação da identificação taxonômica destes corais.

Menezes, N.M.; McFadden, C.S.; Miranda, R.J.; Nunes, J.A.C.C.; Lolis, L.; Barros, F.; Sampaio, C.L.S.; Pinto, T.K. 2022. New non-native ornamental octocorals threatening a South-west Atlantic Reef. Journal of the Marine Biological Association of the United Kingdom , First View , p.1-7. [LINK]

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Autor(es)

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Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância.
Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições.
Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI.
Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

About Rodrigo Maia-Nogueira

Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância. Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições. Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI. Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

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