Como se forma um excelente Mergulhador Científico?

Quais as qualidades e habilidades que precisam ter um Mergulhador Científico? A vivência no mergulho, ter passado por perrengues ou utilizado armengues ao longo da sua carreira e estar vivo ainda torna alguém bom Mergulhador Científico? Ter um título? Ser Divemaster ou Instrutor de Mergulho? Ter curso em diversas especialidades de mergulho com o foco na atividade a ser realizada? Saber definir, aplicar e analisar corretamente os métodos de coleta e de pesquisa?

Se levarmos em conta as questões de forma individual a resposta para todas elas é: “óbvio que não”, porém algumas delas em conjunto sim, são elas ter curso em diversas especialidades de mergulho com foco na atividade a ser realizada e saber definir, aplicar e analisar corretamente os métodos de coleta e de pesquisa. Para um mergulhador possuir ambas as qualidades ele investiu em uma sólida e adequada formação profissional em uma das ciências e como mergulhador.

Todas as outras tem muito valor na história de vida e outras no Lattes de qualquer um, porém tem pouca ou nenhuma relevância na formação do Mergulhador Científico.

Não é de hoje que eu venho observando e analisando o comportamento dos mergulhadores científicos no Brasil, tive a oportunidade nos últimos 25 anos de participar, tanto na função de mergulhador coletor de dados, como safety diver, quanto na equipe de planejamento ou no apoio de superfície, nas mais diversas situações possíveis, e as histórias que posso contar não são nada engraçadas e apesar de não ter vivenciado nenhuma tragédia de fato não foram poucas as irregularidades e situações de risco (que poderiam ser facilmente evitadas) que presenciei. A maioria dos mergulhadores se preocuparam muito pouco com a qualidade da sua formação em mergulho, se aplicaram bastante nas suas áreas de pesquisa, mas negligenciaram justamente as situações que podem pôr em risco a sua própria vida.

Mergulhador Científico rodando video transecto a 30m+ de profundidade (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Houve um certo “avanço” nos últimos anos, porém muito mais associados à uma maior acessibilidade a equipamentos e cursos mais eficientes e mais modernos que na busca por uma qualificação adequada de fato, e quando conversamos sobre o tema é comum dizerem “e você não viu como era antes, era tudo armengado, mergulhávamos só de backpack, sem profundímetro, com cilindros enferrujados, etc.” somo se ter passado por essas situações justificassem serem negligentes hoje. E olha que muitos que dão essas desculpas se qualificaram até Divemaster ou mesmo Instrutor de Mergulho, porém alguns deles apenas para ter o brevet e justificar um suposto conhecimento sobre o tema.

Com muitos destes conversando sobre como se realiza a arte do Mergulho Científico de fato é comum notar a surpresa deles quando se comenta que todo e qualquer Mergulho Científico é um mergulho solo e que 99% dos mergulhadores que atuam nesta área não tem nenhuma formação ou preparo para fazer este tipo de mergulho.

Mergulhadora Científica preparando para foto-rodar quadrats em um transecto (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

A primeira reação quando se toca nesse assunto é quase sempre de negação e os mergulhadores dizem algo como “ah, mas sempre tem mais de um mergulhador na água, então não é solo” … veja bem, para continuar a conversa é preciso lembrar qual o conceito da dupla no mergulho e qual a função da dupla, como ela se realiza na atividade.

Em seguida o mergulhador ou fica curioso e pensativo ou vem com soluções milagrosas como “ah, então é só colocar dois mergulhadores na água juntos, um executando uma parte enquanto o outro toma conta dele, fica de olho, e depois eles invertem”, ouvi muitas vezes essa solução e sempre acompanhada de um sorrisinho no rosto do tipo “criei o armengue perfeito”.

Bom, como todo e qualquer armengue, esse também não resolve nada e além de aumentar o custo por ter dois mergulhadores fazendo o trabalho que apenas um faria, ainda aumenta o risco já que agora são dois mergulhadores solo uma vez que mesmo tendo um mergulhador “tomando conta” do que está executando a tarefa, não tem ninguém “tomando conta” do que que está lá para cumprir o papel de dupla.

Mergulhador Científico fazendo PVA a 33m+ de profundidade (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Então afinal qual a solução para o problema? Ela é simples e em curto prazo deve sair inclusive mais barata (em diversos aspectos) que colocar dois mergulhadores dentro d´água em todas as atividades em que apenas um dê conta, é o cuidado com a formação do mergulhador, é exigir ou fornecer a qualificação adequada, um mergulhador habilitado a fazer mergulho solo, existem diversas opções de especialidade para todas as certificadoras do mercado. E também fornecer o equipamento adequado ao mergulhador, ou exigir que ele tenha seu próprio equipamento.

Mas muitos podem ainda questionar quais as consequências de um Mergulhador Científico não estar habilitado como mergulhador solo, já que faz anos que atuam na área e nunca ouviram falar de alguém que teve algum problema ou da repercussão deles (ou pelo menos não lembram) e tentar argumentar como se a existência do conceito de dupla fosse mero conservadorismo e que cursos como este são meramente mercadológicos, porém se forçarem bem a memória vão lembrar de mergulhadores que ficaram sem ar no fundo e ou subiram como um foguete correndo risco de desenvolver uma doença descompressiva ou foram atrás do primeiro mergulhador que viram e puxaram sua mangueira da fonte alternativa (muitas vezes atrapalhando a coleta de dados do outro mergulhador) e subiram, tem também histórias em que dois mergulhadores fizeram o trabalho compartilhando ar (oi?) negligenciando o fato de que o compartilhamento de ar é um mecanismo de subida emergencial, e tem histórias de mergulhadores que sem um spool e um decomark foram pegos por uma correnteza e subiram sozinhos longe da embarcação e por isso ficaram as vezes minutos ou mesmo horas a deriva. Isso sem falar nos casos em que o mergulhador desenvolveu doença descompressiva. Muitos não lembram desses fatos como problema, mas lembram na hora de fazer gozação com o colega que passou por eles, o que deveriam ser problemas bizarramente viram histórias divertidas. Felizmente, por sorte, a imensa maioria das histórias não tiveram consequências fatais.

Mergulhadora Científica registrando a biota incrustante em vídeo a 34m de profundidade (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Todas estas situações e muitas outras poderiam ser evitadas se o mergulhador tivesse habilitado para atuar nelas, soubessem como se virar sem necessitar de um dupla e tivessem com o equipamento adequado para mergulharem sem um dupla.

Mas e se algumas histórias dessas tivessem tido um desfecho mais grave, com consequências severas ao mergulhador? Seriam ainda engraçadas? Provavelmente iriam dizer que o mergulhador “vacilou” ou iriam criar alguma justificativa que colocasse toda a responsabilidade somente para a vítima. Porém, a realidade é outra, um acidente com desfecho complicado ou mesmo fatal não trás problema não só ao mergulhador vitimado, os profissionais de mergulho envolvidos na operação (estejam eles atuando como Divemasters ou Instrutores na hora ou não), os orientadores do mergulhador acidentado e a instituição que mantinha vinculo com o mergulhador e para a qual ele estava realizando o mergulho podem ter que responder legalmente, e se apurado que o mergulhador não estava devidamente qualificado para realizar aquela atividade naquela condição que lhe foi imposta, o desfecho para todos pode não ser nada bom.

Mergulhador Científico fazendo foto-quadrat a 33m de profundidade (Foto: Roberto Amarante Costa Pinto)

E para a realização dos Mergulhos Científicos as qualificações necessárias não limitam apenas às qualificações básicas e avançadas de mergulho e a especialização em mergulho solo, a realização de uma operação de Mergulho Científico implica em uma grande variedade de peculiaridades que não estão cobertas nos protocolos de mergulho recreativo e que, portanto, muitas vezes não só ultrapassam os limites destas qualificações como também o conservadorismo da formação recreativa.

O mergulho recreativo é pensado para a realização de dois ou três mergulhos por dia, em raros casos quatro, sempre com intervalos longos de superfície e sempre se mantendo longe dos limites de mergulho não descompressivos das tabelas, já no Mergulho Científico há quase sempre a necessidade de se fazer muitos mergulhos em um mesmo dia, as vezes mais de quatro, sempre com intervalos mínimos de superfície quando o ponto se repte, tempo suficiente apenas para trocar o cilindro e cair na água (há inclusive os casos em que o mergulhador nem sai da água, passa apenas o sistema para o barco que troca o cilindro e devolve para o mergulhador) e para conseguir dar conta de executar toda a tarefa necessária os mergulhos são planejados nos limites da tabela (e não raramente se extrapola isso por alguns segundos como se não fizesse a menor diferença), e as vezes isso se repete por dois, três dias ou mais, eu mesmo já estive em expedição de cinco a sete dias embarcados com quatro a seis mergulhos por dia mais de uma vez, e com certeza a maioria dos Mergulhadores Científicos também já tiveram esta experiência.

Equipe de Mergulhadores Científicos em procedimento descompressivo (Foto: Rodrigo Maia Nogueira)

O risco de desenvolver uma doença descompressiva nessas situações não é baixo, e para se prevenir o mergulhador precisa entender as dinâmicas descompressivas, saber que implica em muito mais elementos que apenas checar e fazer o que o seu computador determina (isso quando usam computador), saber programar e estar apto a fazer paradas descompressivas adequadas, mergulhar estritamente o que foi planejado, estar utilizando o gás de fundo e em muitos casos o de descompressão ideal para o planejamento do mergulho, etc. Formações complementares como para o uso de misturas Nitrox, Nitrox Avançado e Procedimentos Descompressivos (que implica para algumas certificadoras na necessidade de se fazer um curso introdutório para o mergulho técnico) são investimentos que além de aumentar significativamente a segurança reduzindo a níveis baixíssimos os riscos de problemas nestas situações, em médio prazo implicam inclusive em economia para os Mergulhadores Científicos e para a instituições para as quais eles realizam seus mergulhos.

Tanto o mergulho solo quanto as habilidades para se fazer mergulhos no limite representam especializações e conhecimentos técnicos que não são adquiridos de forma empírica por mais tempo que se tenha de mergulho, por mais mergulhos se tenha feito ao longo da carreira como Mergulhador Científico e que não fazem parte do currículo básico dos profissionais de mergulho recreativo (Divemaster e Instrutor de Mergulho), apesar de que uma boa formação de mergulho solo também é fundamental para quem exerce uma dessas funções.

Mergulhador Científico em procedimento descompressivo (Foto: Bruno Lima de Menezes)

Mas da mesma forma que sem uma boa e adequada formação tanto nas formações básicas e avançadas quanto em especialidades específicas não se forma um bom Mergulhador Científico, também sem o conhecimento técnico-científico sobre as técnicas de coleta de dados científicos, e sem uma formação sólida na ciência à qual os dados se aplicam, também não se forma um Mergulhador Científico.

A saúde, a integridade, a vida do Mergulhador Científico têm que ser para ele e para quem o orienta ou o contrata ser tão ou mais importante que os dados e as informações que ele precisa coletar. O mergulho tem que ser tratado como sendo mais que uma simples ferramenta, mas sim como uma formação técnica, qualificada e extremamente necessária, tão necessária quanto a qualificação e a formação nas áreas das ciências. Nem sempre a qualificação de mergulho  mais barata sai de fato barata no final das contas.

Please follow and like us:

Autor(es)

+ Artigos

Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância.
Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições.
Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI.
Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

About Rodrigo Maia-Nogueira

Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância. Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições. Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI. Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.