Mergulho científico é um ramo do mergulho comercial ou do mergulho recreativo?

Dia desses conversando com outros mergulhadores surgiu uma discussão interessante, onde melhor se encaixa o mergulho científico? Como um ramo do mergulho comercial ou profissional ou como uma especialidade ou desmembramento do mergulho recreativo ou técnico? Os argumentos são os mais variados, porém a maioria não leva em conta o que de fato é o mergulho científico.

De forma geral, nestas discussões quem defendia que o mergulho científico é um ramo do mergulho comercial ou profissional por ser uma atividade que utiliza o mergulho para outros fins que não a recreação, já os que defendiam que o mergulho para a coleta de dados seja uma especialização ou um desmembramento do mergulho recreativo ou técnico por serem estes mais acessíveis para a formação de alunos (novos mergulhadores científicos) e considerando o currículo da formação recreativa uma vez que a maioria das habilidades ensinadas nos cursos comerciais e profissionais não apresentam relação com a prática do mergulho científico.

Resolvi pesquisar na internet e descobri que muitas das empresas especializadas no mergulho comercial e profissional ofertam no seu hall de atividades serviços que utilizam o mergulho para fins ambientais, o que talvez esteja sendo confundido com mergulho científico, porém nem todo mergulho realizado para fins ambientais se destinam á coleta de dados científicos, muitos destes realizados pelos mergulhadores comerciais e profissionais se referem a atividades associadas a instalação de estruturas, reparação de danos, entre outros.

No que diz respeito ainda ao mergulho comercial ou profissional, este é geralmente, mas não exclusivamente realizado utilizando equipamentos de mergulho dependentes (umbilical) conectados a compressores na superfície para o fornecimento de ar entre outras funções como fonia por exemplo, equipamentos que inviabilizam a aplicação da maioria dos métodos de pesquisa que enfoquem a coleta de dados de organismos aquáticos.

No que diz respeito ao mergulho recreativo, por conta do caráter conservador que concede total segurança à prática recreativa do mergulho autônomo (com o uso de aparelho SCUBA) que tem como finalidade atividades de contemplação, a formação tradicional que consiste nos cursos de mergulho básico e avançado por si só não prepara os mergulhadores para realizar com segurança o mergulho científico frente as peculiaridades desta atividade. Não preparam o mergulhador para o planejamento seguro da atividade, para mergulhar sem o sistema tradicional de duplas e para mergulhar nos limites das tabelas (limites de tempo e de profundidade e tempo reduzido de intervalos de superfície para mergulhos consecutivos muitas vezes realizados em vários dias seguidos).

Talvez o mergulho técnico seja o ramo mais próximo do mergulho científico, porém este por outro lado mesmos nos cursos mais básicos ultrapassa as necessidades básicas do mergulho científico.

A meu ver o mergulho científico é uma atividade a parte tanto do mergulho comercial ou profissional quanto do mergulho recreativo, atividade que possui necessidades e peculiaridades específicas que não são supridas nem por um ramo e nem pelo outro.

A American Academy of Underwater Sciences (AAUS), define que o mergulho científico como sendo um mergulho realizado exclusivamente como uma parte necessária de uma determinada atividade científica, de pesquisa ou educacional por membros ou funcionários de um determinado centro científico a fim de realizar tarefas relacionadas a pesquisas científicas. Outras agências e sociedades incluem ainda na definição do mergulho científico os mergulhos com as mesmas características, porém que não estão limitados à academia, incluindo-se então os mergulhos realizados para as pesquisas e monitoramentos executados por instituições do terceiro setor e os mergulhos realizados para os estudos com fins de consultoria ambiental.

Na prática o mergulho científico é todo aquele no qual se utiliza ferramentas e métodos específicos para a coleta de dados científicos para serem analisados e processados pela academia, instituições do terceiro setor e empresas de consultoria ambiental.

Para realizar os mergulhos científicos o mergulhador tem que estar apto a mergulhar em um perfil auto suficiente sem a dependência de um dupla, estar habilitado para utilizar misturas gasosas enriquecidas com oxigênio, estar habilitado para planejar os mergulhos considerando as profundidades e os métodos de pesquisa determinando as misturas de gases adequadas de acordo com a profundidade e o tempo de fundo, o tempo de fundo pretendido de acordo com cada método a ser aplicado, o número de mergulhos consecutivos necessários para a realização da coleta de dados, o tempo mínimo possível de ser realizado para cada intervalo de superfície, além de estar devidamente habilitado a realizar procedimentos descompressivos de emergência. Habilidade que podem ser aprendidas tanto no mergulho comercial ou profissional quanto no mergulho recreativo ou técnico, porém que não fazem parte de uma formação básica, se faz necessário uma preocupação e um investimento maior por parte do próprio mergulhador na busca de qualificação e aperfeiçoamento.

Ou seja, é uma discussão sem fundamento, o mergulho comercial ou profissional é uma coisa, o mergulho recreativo outra, o mergulho técnico outra e o mergulho científico outra, cada qual com suas especificidades e peculiaridades, porém destas, o mergulho científico é o único que ainda não possui pelo menos uma agência de formação e certificação.

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Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância.
Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições.
Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI.
Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

About Rodrigo Maia-Nogueira

Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância. Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições. Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI. Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

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