Monitoramento dos Naufrágios do Vega e do Agenor Gordilho : 150 dias: Biota Aquática

Desde o nosso último post sobre o monitoramento da colonização da biota aquática nos naufrágios do ferry boat Agenor Gordilho e do rebocador offshore Vega no dia 21 de fevereiro de 2021, quando os afundamentos completaram 90 dias as atividades de mergulho da maioria das operadoras de mergulho de Salvador foram suspensas por conta das medidas restritivas impostas pelos governos municipal e estadual por causa do aumento absurdo nos casos de COVID-19 na cidade, apenas em meados de abril as operações retornaram aos poucos, porém inicialmente sem quórum para justificar as saídas.

O interior já bem colonizado do ferry boat Agenor Gordilho (Foto: Roberto Amarante Costa Pinto)

Esta suspensão acabou por refletir também na suspensão dos mergulhos com finalidade de monitorar os naufrágios já que na maioria das vezes estes se deram, salvo em raras exceções, quando da realização de saídas para mergulho recreativo e por isso não publicamos ou comentamos aqui algo sobre o quarto mês do afundamento e o fechamento dos primeiros 120 dias, porém com o retorno ainda tímido e em meio a medidas de segurança que reduzem consideravelmente a capacidade dos barcos das operadoras foram feitos alguns mergulhos no quinto mês e podemos comentar como estão os navios ao completarem 5 meses desde o seu afundamento.

Ascídias (Phallusia nigra) e crinoides por todo o canto no Agenor Gordilho (Foto: Roberto Amarante Costa Pinto)

Na semana passada completaram 150 dias desde o afundamento e algumas coisas mudaram nos naufrágios, o número de hidrozoários (Hidrozoa) reduziu bastante, antes eles tomavam todo o assoalho e as tubulações dos gradis, hoje eles ainda estão muito presentes, porém em menor quantidade. O briozoário-de-renda (Triphyllozoon cf. arcuatum), espécie invasora, que se apresentava bem abundante no verão reduziu consideravelmente.

Convés de automóveis do Agenor Gordilho, notar a concentração de areia sobre a estrutura (Foto: Roberto Amarante Costa Pinto)

Como neste último mês a maré ficou muito grande (altas amplitudes) nos períodos de sizígia as correntes de vazante e enchente tiveram mais força e alteraram um pouco o fundo ao redor dos navios, especialmente ao redor do ferry boat Agenor Gordilho, de tal forma que partes que antes ficavam descoberta ficaram cobertas, como boa parte da âncora e da quilha do navio e partes antes cobertas, como o hélice de bombordo foram descobertas.

Outro ponto do convés de automóveis do Agenor Gordilho, notar a concentração de areia sobre a estrutura (Foto: Roberto Amarante Costa Pinto)

Em paralelo, neste mesmo período mesmo nas áreas com alguma cobertura o assoalho dos navios está coberto de areia, o mesmo acontece no passadiço e em outras partes do navio. Este assoreamento pode em parte ter sido provocado pelas correntes, porém a quantidade de areia é muito e grande e este mesmo assoreamento está também sendo observado no naufrágio do Ho-Mei No.III como nunca foi observado antes. Neste mesmo período está ocorrendo a dragagem do porto de Salvador e este sedimento pode ter origem desta atividade, inclusive o assoreamento da âncora também pode estar associado ao sedimento oriundo da dragagem.

Mais um ponto do convés de automóveis do Agenor Gordilho, notar a concentração ainda maior de areia neste ponto (Foto: Roberto Amarante Costa Pinto)

Esse assoreamento é provavelmente o fator responsável pela redução de hidrozoários e do briozoário-de-renda nas estruturas dos naufrágios. A ascídia-negra (Phalusia nigra) parece não ser tão vulnerável quanto os hidrozoários e o briozoário-de-renda a estes fatores e ao contrário das espécies que tiveram sua abundância reduzida, ampliaram sua distribuição pelas estruturas dos navios.

Inclusive a âncora do Agenor Gordilho está sendo soterrada pela areia. O tonel que ficava ao seu lado praticamente já sumiu a areia (Foto: Roberto Amarante Costa Pinto)

Outro organismo que se encontra bem abundante é o crinoide que já se encontra por todo canto, tanto na estrutura externa quanto nas áreas internas, em especial nas escadas. O mistério do sirí-bidu (Charybdis hellerii) continua, exemplares continuam sendo registrados mortos por todo o canto.

Um sirí-bidu (Charybdis hellerii) vivo fotografado no Agenor Gordilho (Foto: Roberto Amarante Costa Pinto)

Os peixes planctívoros que formam grandes cardumes, em especial os xixarros (Decapterus macarelus) e que chegavam a impedir de se ver a estrutura dos naufrágios em alguns pontos de tão abundantes e concentrados que se apresentavam praticamente sumiram dos naufrágios, porém as quatingas (Haemulon aurolineatum) seguem o movimento oposto e estão ainda mais abundantes, presentes em todos os estratos de profundidade.

Até o momento foram registradas 53 espécies de peixes para o naufrágio do ferry boat Agenor Gordilho e 40 para o naufrágio do rebocador offshore Vega.

Com relação ao coral-sol (Tubastraea coccinea) registrado e removido no final de fevereiro, nos mergulhos realizados neste período não foram observadas novas colônias e um bom trecho onde a colônia removida foi registrada encontra-se soterrado pela areia.

Estamos ainda sem previsão para o retorno das atividades no ritmo que estávamos mantendo entre o afundamento e final de fevereiro antes da intensificação das restrições, porém assim que for possível a primeira ação será a da busca intensiva por novas colônias de organismos invasores e efetuar a sua devida remoção.

Situação atual da popa do Agenor Gordilho (Foto: roberto Amarante Costa Pinto)

 

 


IMPORTANTE

Não autorizamos o uso das informações e das imagens desta postagem para fins comerciais especialmente a utilização dos dados apresentados em relatórios técnicos ambientais sem a devida autorização. O monitoramento da biota aquática nos naufrágios do ferry boat Agenor Gordilho e do rebocador Vega vem sendo realizado desde novembro de 2020 pela equipe da EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico em parceria com a Shark Dive Escola e Operadora de Mergulho de forma voluntária, por iniciativa própria e sem vínculo com nenhum processo de licenciamento ambiental.

About Rodrigo Maia-Nogueira

Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância. Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições. Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI. Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

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