O mergulho científico e a Doença Descompressiva

A doença descompressiva (DD) é talvez o maior dos problemas associados a todas as modalidades de mergulho e se caracteriza pelos danos causados pela saturação de gases acumulados nos tecidos.

Quando um mergulhador é exposto a um ambiente com pressão elevada, o gás inerte (a exemplo do nitrogênio) na mistura é absorvido e se acumula nos tecidos. Quanto mais profundo for o mergulho mais rápida é a absorção do gás consequentemente aumentando a sua acumulação nos tecidos, porém não a profundidade não é o único fator que acarreta o aumento da acumulação destes gases, uma respiração mais ofegante, além de qualquer esforço que vá além da natação lenta e a simples contemplação dos mergulhos recreativos também aceleram a acumulação de gases pelos tecidos.

No mergulho científico, por menos que se perceba o esforço à mais, o arrasto causado pelos equipamentos extra carregados (carretilhas, formões, marretas, entre outros) implica em até 30% no aumento do consumo de gases por conta de um esforço quase imperceptível. Utilizar estes equipamentos, desenrolar e enrolar os cabos das carretilhas, marretar, e mesmo as atividades de coleta manual de organismos aumentam ainda mais o consumo de gases uma vez que o esforço é ainda maior e, portanto, aumenta também de forma significativa a acumulação de gases pelos tecidos.

Outra característica do mergulho científico que proporciona um maior aumento da acumulação de gases pelos tecidos é o número elevado de mergulhos subsequentes em intervalos de superfície muitas vezes inferiores aos recomendados pelas principais certificadoras de mergulho. Ou seja, mesmo considerando que em ambos os casos os mergulhadores seguiram as recomendações das certificadoras de mergulho recreativo, o risco de uma saturação de gases nos tecidos e por consequência o desenvolvimento de uma doença descompressiva é maior na maioria dos mergulhos científicos que em qualquer mergulho recreativo.

No mergulho em geral o problema ocorre quando, à medida que o mergulhador sobe em direção à superfície ao mesmo tempo em que o gás inerte acumulado passa a ser eliminado dos tecidos caindo na circulação até chegar nos pulmões e serem exalados, por conta da redução da pressão externa as bolhas de gás que caem na circulação também tendem a aumentar de tamanho e podem se alojar em articulações ou mesmo chegar aos órgãos como o cérebro ou o coração e provocar sérios danos.

Sendo os principais sintomas o formigamento e a dor intensa provocada principalmente pelo alojamento de bolhas nas articulações interrompendo o fluxo sanguíneo, podendo provocar também o entorpecimento de membros, entre outros sintomas como provocar problemas constitucionais (como dor de cabeça, fadiga excessiva, mal-estar e náusea), provocar tontura ou vertigem, desordem ou dificuldade motora, problemas cutâneos ou de pele (como coceira, erupção cutânea, manchas marmoreadas na pele), estado mental prejudicado, coordenação física prejudicada, desconforto muscular e fraqueza, problemas pulmonares (como dificuldade respiratória e engasgos), disfunção da bexiga (como retenção da urina) ou do intestino , sintomas auditivos (como ouvir sons que não existem ou dificuldade em ouvir), preocupações linfáticas (como dor e inchaço localizado), redução do nível de consciência e comprometimento da função cardiovascular.

Uma vez que os sintomas da doença descompressiva são comuns a diversos outros problemas que podem estar ou não associados ao mergulho e considerando que eles podem surgir tanto imediatamente após o mergulho ou mesmo horas e dias depois, segundo protocolos internacionais, caso dois ou mais sintomas sejam sentidos simultaneamente convém procurar imediatamente um médico hiperbárico. É importante também ter às mãos todos os dados dos últimos mergulho realizados, em especial os gases utilizados, os tempos de fundo, as profundidades máxima e de trabalho, os intervalos de superfície e as atividades realizadas durante cada mergulho, se foram cumpridas ou negligenciadas as paradas de segurança, se houve necessidade ou não de paradas de descompressão e se elas foram realizadas ou negligenciadas, isso o mais detalhado e o mais preciso o possível.

A única forma realmente eficiente de tratar a doença descompressiva é através de um tratamento hiperbárico adequado, utilizando as medicações adequadas de acordo com os sintomas apresentados e acompanhado por um médico, preferencialmente um médico hiperbárico. A recompressão na água apesar de ser amplamente realizada por mergulhadores de compressor (a maioria sem nenhum treinamento de mergulho) ela não trata adequadamente e pode deixar sequelas, portanto ela não é recomendada, exceto em caso em que o atendimento hospitalar adequado esteja a mais de uma ou duas horas de distância, ou quando a localidade não possui uma câmara hiperbárica. De qualquer forma, realizar uma recompressão exige técnicas e conhecimentos específicos que um mergulhador básico ou avançado, ou mesmo um Divemaster ou instrutor que não tenha sido capacitado para realizar procedimentos descompressivos não está apto a fazer. A prevenção é o melhor remédio.

A melhor forma de prevenir a doença descompressiva é seguindo à risca as recomendações das certificadoras de mergulho recreativo, o que implica em não ultra passar os limites não descompressivos, realizar intervalos de superfície adequados para a eliminação do gás residual de forma que o tempo necessário para o próximo mergulho se mantenha dentro dos limites não descompressivos, caso alcance as últimas casas das tabelas de mergulho, respeite o intervalo mínimo de superfície e a recomendação de não realizar mergulhos subsequentes, evite esforço excessivo ou além do previsto para o mergulho recreativo, controle o seu consumo de gás, não suba para a superfície em velocidades acima das recomendadas pelas certificadoras de mergulho recreativo (aproximadamente 9m por minuto) e realize as paradas de segurança de 3 minutos entre 3m e 5m de profundidade. Caso deseje ficar mais tempo no fundo em baixas profundidades sem necessidade de descompressão se capacite para o uso de misturas Nitrox, caso deseje ir mais fundo se capacite para realizar procedimentos descompressivos. Ou seja, não mergulhe fora dos padrões e regras de segurança.

No caso do mergulho científico o cumprimento de algumas destas regras se torna muitas vezes difícil, em especial atingir constantemente os limites não descompressivos, fazer intervalos de superfície geralmente curtos e pouco eficientes, especialmente quando o número de mergulhos consecutivos é maior que dois e carregar e utilizar ferramentas e métodos que implicam em um esforço superior ao dos mergulhadores recreativos.

Para o mergulhador científico, além de estar capacitado para realizar mergulhos básicos (Open Water Diver ou equivalente), mergulhos avançados (Advanced  ou Adventure Diver ou equivalente), resgate e primeiros socorros, mais importante que seguir para uma formação profissional de mergulho (Divemaster ou mesmo instrutor) é se qualificar como mergulhador solo (ou autossuficiente) uma vez que TODO mergulho científico é inevitavelmente um mergulho SOLO, realizar treinamento em máximo ou melhor desempenho de flutuabilidade para alcançar um trim adequado que lhe proporcione menos arrasto e portanto melhor desempenho no consumo de gás, se qualificar para mergulhar utilizando misturas de gases Nitrox, se qualificar em algum curso introdutório de mergulho técnico que é pré-requisito para se qualificar para realizar procedimentos descompressivos.

O mergulho em geral, apesar de ser uma atividade de risco, possui protocolos que minimizam e no caso do mergulho recreativo praticamente anulam estes riscos, porém se faz necessário seguir à risca e da forma mais conservadora o possível estes protocolos.

 

Mais sobre o mergulho científico

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Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância.
Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições.
Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI.
Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

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