Combater o coral-sol é possível? A remoção manual é eficiente?

A maior desculpa para não se combater o coral-sol e outros corais invasores se apegam no fato de que uma vez estressados estes corais liberam gametas na água ou como ocorre com os corais-azul e marrom se rompem em fragmentos que tem a capacidade de recolonizar outras áreas. Mas será que é melhor realmente não fazer nada em vez de correr o risco? Será que realmente esse risco existe?

Colônias de Coral-sol registradas a 35m de profundidade na Falha do Cretino, baía de Todos os Santos (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Em Salvador o coral-sol foi registrado em um mergulho realizado no naufrágio do Cavo Arthemide em dezembro de 2007 onde eu encontrei e coletei a colônia que permitiu que a gente determinasse a espécie e desse o start nas primeiras buscas por outras infestações e na publicação dos primeiros registros.

Colônias do Coral-sol registradas no naufrágio do Blackadder na baía de Todos os Santos (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

De lá para cá o coral-sol já atingiu mais de 40 pontos dentro da baía de Todos os Santos, em sua maioria piers e flutuantes de atracação ou em recifes naturais, e em 2019 começou a ser observado em profundidades superiores a 30m.

Colônias do Coral-sol fotografadas em 2010 no naufrágio do Cavo Arthemide (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Ainda em 2012, com a publicação do artigo dos primeiros registros foi criada em Salvador uma Coalizão envolvendo pesquisadores do Projeto Coral-Sol, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), do Laboratório de Porífera (LABPOR) da Universidade federal da Bahia (UFBA), pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), da ONG Socioambientalista Pró-Mar e do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática), foram realizados Workshops, determinados protocolos e realizado treinamentos para ações de remoção, um momento em que ainda se acreditava ser possível erradicar o coral-sol da baía de Todos os Santos, e talvez até fosse se logo após as primeiras reuniões e atividades de treinamento as ações não ficassem emperradas.

Colônias do Coral-sol registradas a 33m de profundidade no naufrágio do Ho-Mei No.III na baía de Todos os Santos (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

No início se desconheciam outros focos de infestação a não ser o naufrágio do Cavo Arthemide cuja quantidade de colônias era bem pequena e cujo navio vinha sendo coberto pelo banco de areia de Santo Antônio, o recife dos Cascos onde a quantidade era assustadora e na Marina de Itaparica, porém o maior entrave para o início das atividades enquanto estávamos todos focados em resolver o problema foi a burocracia e a dificuldade em se conseguir uma licença das autoridades ambientais competentes para realizar tal ação, foram meses de negociação, escrevendo cartas e manifestos endereçadas à estas autoridades relatando a gravidade do problema a necessidade celeridade para aproveitarmos uma janela de oportunidade, dando entrevistas, etc.

Colônias do Coral-sol a 1,5m de profundidade no recife da Boa Viagem, baía de Todos os Santos (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Foram meses tentando obter a tal licença e com a espera os atores começaram a divergir em opiniões sobre assumir o risco e fazer algo pelo meio ambiente começando as ações mesmo sem as licenças necessárias e ter algum resultado ou ceder ao sistema e aguardar a licença correndo o risco de ser tarde demais. A divergência se acirrou de tal forma que as instituições começaram a sair da coalizão e a tratar o assunto da forma que achavam que deviam, porém da mesma forma que juntos éramos muito fortes e capazes de ter feito a diferença, separados e apenas aguardando nos tronamos inferiores à capacidade de colonização e invasão do coral-sol.

Colônia de Coral-sol registrada na areia, a 10m de profundidade em frente ao Porto de Salvador, baía de Todos os Santos (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Como ficamos muito tempo parados, esperando a burocracia nos autorizar a agir o coral-sol passou a ser objeto de experimentos e estudos de alunos de graduação ou de pós-graduação, na mesmo época em que o foco que antes era em torno do controle e da tentativa de erradicar o coral invasor mudou de tom e passou a ser o de monitorar, de estudar e entender as dinâmicas associadas à invasão por estes organismos, entender os reais impactos, etc … mais um ponto de divergência entre os atores envolvidos … haviam aqueles que afirmavam que não era mais tempo, que seria impossível vencer o invasor já que ao tentar removê-los eles liberariam os gametas na água e infestariam outras áreas, estes acreditavam que estaríamos “enxugando gelo” e haviam (e ainda existem) aqueles que achavam (e ainda acham) que todo esforço era válido e que nada é impossível, que o primeiro passo tinha que ser dado e se a ação conseguisse sensibilizar os mergulhadores recreativos teríamos um batalhão para atuar na ação e as operadoras de mergulho na época estavam engajadas e interessadas em apoiar as ações.

Colônias de Coral-sol registradas nos flutuadores do Centro de Turismo Náutico de Salvador, baía de Todos os Santos (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Mas será que realmente essa liberação de gametas provocada pelo stress era um problema maior do que deixá-los continuar sua colonização sem nenhuma interferência mais enérgica?

Em uma pesquisa realizada pelo pesquisador Joel C. Creed e colaboradores do Laboratório de Ecologia Marinha Bêntica, do Departamento de Ecologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e publicada recentemente na edição 207 do periódico Ocean and Coastal Management foi testada a eficiência da remoção manual como ferramenta de gestão em três locais ao longo de u260km na costa brasileira sob diferentes condições oceanográficas, para tal foram realizados quatro tipos de intervenção:

  1. Remoção de toda a comunidade bentônica deixando a rocha nua;
  2. Remoção exclusivamente das colônias do coral-sol;
  3. Remoções repetidas das colônias de coral-sol nas revisitas realizadas a cada 2 meses;
  4. Determinação de áreas controle desprovidas de coral-sol.

Em todas as áreas foram realizadas análises qualiquantitativa das comunidades bentônicas de substrato consolidado através de fotografias e a quantificação de larvas capturadas através do arrasto de redes de plâncton.

Constatou-se que o ato da remoção manual do coral-sol não apresentou efeito significativo na abundância de larvas do coral invasor, e o método de remoção repetida bimestralmente acarretou a redução da cobertura do coral-sol nas áreas manejadas a zero. Mesmo nos locais onde houve esforço único de remoção o método se mostrou eficiente, especialmente nos locais com baixa densidade de colônias deste coral.

Colônia do Coral-sol registrada na balsa do Terminal, um fragmento de pier flutuante que naufragou em frente o Terminal Turístico de Salvador, baía de Todos os Santos (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

O artigo conclui, portanto, que a remoção é eficiente e deve ser aplicada em sinergia com outras medidas que tenham como objetivo retardar a disseminação destes invasores, além da promoção e recuperação do ecossistema dando tempo para o desenvolvimento de ferramentas adicionais de combate e estes organismos.

Esses dias, quando essa pesquisa foi divulgada em um grupo de WhatsApp, dentre os comentários  sobre o tema um pesquisador comentou que essa liberação de gametas na verdade é um aborto, é como se fosse o último suspiro da colônia que no stress provocado pela remoção tenta de todas as formas cumprir seu objetivo como espécie, porém muitas vezes esses gametas estão imaturos e portanto não possuem a capacidade de fecundar e formar novas colônias, e inclusive este mesmo pesquisador comentou que em uma ação de remoção, algum tempo após as colônias já terem sido removidas e estarem acondicionadas em baldes no convés da embarcação foram observadas gametas dentro destes baldes mostrando que em muitos casos esta liberação de gametas não é imediata e pode ocorrer ainda um bom tempo após a sua remoção.

Outro ponto a se considerar é que o organismo não cria novas gametas para então liberá-las, são gametas que já estavam sendo desenvolvidas e invariavelmente seriam liberadas no ambiente logo mais, e novamente o coral-sol iria produzir mais gametas e liberá-las, repetidamente ao longo de toda a sua existência.

Com certeza, o risco da liberação de gametas não é uma justificativa para não realizar ações de remoção do coral-sol, e sim, este método é eficiente se realizado sistematicamente.

Coral-azul no Parque Marinho da Barra, baía de Todos os Santos (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

No caso dos corais-azuis e marrons, outras duas espécies de corais invasores com ocorrência na baía de Todos os Santos, como a estratégia destes corais é diferente, ao serem removidos eles se partem em pequenos fragmentos que são levados pela corrente e onde vão parar eles se estabelecem formando colônias clone, e como eles se fragmentam com muita facilidade a remoção manual pode ser menos eficiente no caso destes organismos. Outros métodos, como enterrar as colônias com areia, cobrir vastas áreas com lonas por um tempo ou utilizar agentes químicos não vão afetar apenas as colônias dos corais invasores como também os organismos nativos, e este fato divide hoje a opinião de especialistas, e enquanto isso estes corais ampliam com bastante eficiência a sua área de colonização suprimindo espécies nativas. Será que sacrificar uma certa quantidade de espécies nativas hoje não acarrete menor prejuízo a longo prazo com uma perda ainda maior de espécies nativas?

Coral invasor registrado em fevereiro de 2021 no interior da baía de Todos os Santos (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Bom, como já sabemos que vale a mais à pena fazer a remoção manual que deixar as colônias se desenvolverem e colonizarem novas áreas, mãos à obra.

 

FONTES

Creed, J.C.; Casares, F.A.; Oigman-Pszczol, S.S.; Masi, B.P. 2021. Multi-site experiments demonstrate that control of invasive corals (Tubastraea spp.) by manual removal is effective. Ocean and Coastal Management, 207(105616):13pp. [Abstract]

Sampaio, C.L.S.; Miranda, R.J.; Maia-Nogueira, R.; Nunes, J.A.C.C. 2012. New occurrences of nonindigenous orange cup corals Tubastraea coccinea and T.tagusensis (Scleractinia: Dendrophylliidae) in Southwest Atlantic. Check List, 8(3):528-530 [Abstract]

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Autor(es)

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Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância.
Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições.
Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI.
Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

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