Pesquisadores franceses avaliaram a eficiência dos recifes artificiais marinhos

Pesquisadores franceses fizeram uma meta-análise de 127 publicações científicas sobre 162 recifes artificiais realizadas entre 1973 e 2019 selecionadas em um universo de pelo menos 5.771 publicações sobre o tema disponíveis na Web of Science no período entre janeiro e setembro de 2019 na intenção de comparar e analisar através de 67 variáveis o design, os objetivos e a efetividade dos recifes artificiais estudados.

As 127 publicações foram selecionadas com base em três critérios:

  • Que incluíssem o monitoramento dos recifes artificiais em questão;
  • Cujo recife artificial tenha sido implantado intencionalmente;
  • Cuja estrutura destinada a forma um recife artificial tenha sido instalado em ambiente mesohalino marinho ou em ambiente estuarino com um objetivo específico.

Foram analisados recifes artificiais distribuídos em todo o mundo, sendo 69 deles na Europa, 37 na Ásia, 26 na América do Norte, 11 na Oceania, 10 na América Central, 5 na América do Sul, 3 na África e 2 no Oceano Pacífico.

Entende-se por recifes artificiais todas as estruturas construídas pelo homem e instaladas em ambientes aquáticos que intencionalmente ou não acabam servindo como habitat ou abrigo para os organismos aquáticos.

Para fins da análise realizada pelos pesquisadores franceses, uma vez que a eficiência é avaliada com base nos objetivos foram consideradas apenas os recifes artificiais intencionais, que foram instalados com o objetivo específico de mimetizar as funções de um recife natural, e com o objetivo de proteger, regenerar, concentrar e aumentar as populações de organismos marinhos incluindo a proteção e regeneração de habitats e o aprimoramento da pesca.

Desta forma, foram excluídos desta análise os recifes artificiais formados por naufrágios não intencionais (não deixa claro se foram excluídos os naufrágios realizados com objetivo exclusivamente turístico), atratores de peixes (estruturas cuja finalidade exclusiva promover uma determinada arte de pesca em um determinado local), tubulações e dutos, ilhas artificiais, cabos, plataformas, amarrações e estruturas de defesa da linha de costa como quebra-mares, molhes e diques.

Segundo os autores do estudo, com base em um estudo realizado pelo pesquisador Mark Baine da Universidade Heriot-Watt (Reino Unido) em 2001 há uma tendência das pesquisas em obscurecer os objetivos principais da implantação dos recifes artificiais, além do fato de que em muitos casos não houve uma avaliação independente dos recifes e muitas das autoavaliações analisadas apresentam inconsistência na avaliação da eficiência.

A maioria dos monitoramentos avaliados se limitaram a focar os seus estudos em poucas espécies ou apenas em determinados grupos taxonômicos, ou ao ambiente exclusivo do recife artificial e seu entorno imediato, sem levar em conta abordagens ecológicas estruturais e funcionais importantes. Isso sem falar em periodicidade irregular ou não padronizada.

Muitas outras análises e revisões de estudos acerca dos recifes artificiais já foram realizados, porém a maioria se referia principalmente à gestão, à recomendações e prioridades na instalação destes recifes, aspectos sociais e em alguns casos envolvendo a avaliação da eficiência.

Foram analisados, utilizando o método proposto por Baine (2001) que se baseia em uma escala de eficiência simplificada, vários parâmetros incluindo a forma e a composição dos materiais utilizados para a construção dos recifes, as técnicas de monitoramento e o propósito inicial dos recifes em questão. Os autores deste estudo deixam claro que esta abordagem não produz uma avaliação qualitativa absoluta, porém é baseada em informações e dados for artigos selecionados e reflete, portanto, as interpretações de vários autores diferentes.

As análises concluíram que existe uma grande variedade de formas, materiais e finalidades diferentes. O estudo concluiu também que apesar de amplamente distribuídos em todo o mundo, os recifes artificiais o maior esforço de monitoramento foi observado na Europa, seguido pela Ásia e pela América do Norte, porém o próprio artigo reconhece que a sua amostragem não representa a real distribuição de iniciativas de recifes artificiais ao redor do planeta.

No que diz respeito ao design, a maioria das estruturas relatadas nos estudos analisados eram compostas por concreto (60%) e apresentavam formatos cúbicos (27%). A análise mostra uma correlação significativa entre a aplicação do concreto como material utilizado e uma maior eficiência devido à alta taxa de fixação dos organismos e ao alto nível de colonização, além de apresentar menor impacto ao meio ambiente se comparado aos recifes com componentes plásticos (PVC) que são tóxicos e geram micropartículas.

O uso de matérias primas que utilizam material de origem biogênica como conchas e outros substituindo a areia na composição do concreto representa uma solução sustentável que fortalece a coerência nos projetos de recifes artificiais reduzindo as pegadas ambientais associadas ao empreendimento.

No que diz respeito ao design, a análise concluiu que este critério tem um impacto limitado em comparação ao tamanho do recife, no entanto o formato cilíndrico apresenta maior eficiência. Já em relação ao tamanho os recifes com mais 1.000m³ de área apresentam maior eficiência uma vez que grandes estruturas favorecem a ocorrência de fenômenos como a ressurgência e um incremento na produção primária.

Além disso, a análise concluiu que a heterogeneidade da superfície é uma condição importante para a eficiência dos recifes artificiais, por motivos óbvios, apresentam maior complexidade promovendo e facilitando a colonização. Outros fatores importantes estão associados ao posicionamento dos recifes em relação à correntes e iluminação natural.

Uma vez que os recifes artificiais atuam como atratores e induzem a agregação de peixes aumentando a taxa de captura, a análise considerou que os recifes criados com o objetivo de incrementar a pesca foram altamente eficientes no seu propósito.

Os recifes artificiais representam segundo a análise notáveis benefícios econômicos para a pesca local, porém o aparente sucesso destas estruturas com relação a esta finalidade pode mascarar os efeitos negativos sobre os ecossistemas. Um incremento na biomassa de peixes sem um aumento proporcionalmente significativo na produção primária pode resultar em sobrepesca e/ou no aumento de capturas acidentais.

Com relação aos recifes artificiais experimentais, construídos geralmente para investigar o desempenho de diferentes materiais e formas, e por conta disto apresentam uma maior variedade de formatos e materiais em relação aos recifes implantados com outras finalidades e por isso representam também menor eficácia.

Outros fatores chave para o sucesso do recife artificial estão relacionados ao tempo de vida e a profundidade onde foi instalado uma vez que a biota mostra uma evolução progressiva ao longo dos anos após a implantação do recife (destacando a importância de monitoramentos de longo prazo).

A avaliação dos métodos e técnicas de monitoramento considera os protocolos adotados nos estudos. Os protocolos precisam ser coerentes aos objetivos específicos dos monitoramentos e às finalidades dos recifes. Vários dos recifes artificiais analisados não possuíam nenhum protocolo de monitoramento efetivos ou utilizavam apenas uma pequena variedade de protocolos de forma limitada. No entanto, a maioria dos recifes artificiais analisados apresentaram em seus monitoramentos protocolos ecológicos, que fornece informações como biodiversidade ou abundância de espécies para um número variável de compartimentos do ecossistema.

O estudo conclui que a natureza binária (presença e ausência) das variáveis demonstra a perda maciça de informações detalhadas na literatura científica.

Embora as 67 variáveis avaliadas sejam as mais representativas nas publicações selecionadas muitas outras variáveis ficaram de fora, tais como diversas variáveis ambientais dentre as quais as relações destes recifes com as espécies bioinvasoras.

Dentre os resultados das análises se destaca o reforço na constatação da importância dos monitoramentos bem delineados e corretamente executados.

 

FONTES

Baine, M. 2001. Artificial reefs: a review of their design, application, management and performance. Ocean & Coastal Management, 44(3-4):241-259. [Abstract]

Vivier, B.; Dauvin, J-C.; Navon, M.; Rusig, A-M.; Mussio, I.; Orvain, F.; Boutouil, M.; Claquin, P. 2021. Marine artificial reefs, a meta-analysis of their design, objectives and effectiveness. Global Ecology and Conservation, 27(301538):20pp. [PDF]

Please follow and like us:

Autor(es)

+ Artigos

Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância.
Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições.
Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI.
Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

About Rodrigo Maia-Nogueira

Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância. Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições. Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI. Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.