Tubarão-cabeça-chata é retirado a água e morto a pauladas e ponta pé em praia do Ceará

No último domingo, dia 14 de março de 2021, circularam fotos de barbaridades cometidas contra um tubarão-cabeça-chata neste mesmo dia na praia de Balbino, município de Cascavel, Ceará. Na ocasião o tubarão foi avistado nadando próximo à zona de arrebentação, com a desculpa de “proteger a praia” alguns banhistas capturaram o tubarão e o retiraram da água. Na areia da praia, ainda com vida o tubarão foi agredido, cutucado várias vezes com uma fisga, levou chutes e um cidadão ficou provocando enfiando uma tora de madeira em sua boca, tudo isso enquanto outros banhistas filmavam com seus celulares.

Cena de um dos vídeos que circularam nas redes sociais evidenciando os maus tratos contra a fêmea do tubarão-cabeça-chata no Ceará

Como se não bastasse, uma vez morto ou talvez ainda moribundo o tubarão foi amarrado ao fundo de um buggy e arrastado como troféu na areia da praia, barbárie que também foi filmada por banhistas.

Nas redes sociais foi possível acompanhar tanto manifestações de repúdio, quanto algumas poucas de pessoas mal informadas que aplaudiam as barbáries acreditando realmente que retirar o tubarão da água era uma questão de segurança não dando a menor importância para a forma que tudo foi feito.

O tubarão em questão era uma fêmea de tubarão-cabeça-chata (Carcharhinus leucas), espécie costeira relativamente comum em águas rasas (em geral até 30m de profundidade) de quase todo litoral Brasileiro apesar de não ser facilmente avistada e não se encontra sob nenhuma categoria de ameaça.

O tubarão-cabeça-chata, que pode atingir cerca de 2,3m de comprimento é um animal carnívoro, forte e robusto que se alimenta de tartarugas e de outros peixes e ao ser avistado o indicado é que todos saiam da água e logo o tubarão irá se afastar.

Por não se tratar de uma espécie ameaçada a pesca do tubarão-cabeça-chata não é proibida, porém apesar da suposta distribuição da carne da fêmea morta no domingo, os atos de maus tratos observados nos vídeos não condizem com os procedimentos adotados por pescadores, enfiar uma tora de madeira na boca do animal e ficar dando fisgadas não são procedimentos corretos e correspondem a maus tratos, assim como arrastar o corpo do animal com um carro pela areia da praia, procedimento que inclusive compromete a qualidade do pescado.

A Lei de Crimes Ambientais nº9.605 de 1998 em seu Artigo 38 diz que abusar, maltratar ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos, é considerado crime ambiental cuja pena pode chegar a um ano de detenção, além de multa cujo valor é definido judicialmente.

No que diz respeito ao caso de 14 de março último, a Secretaria de Agricultura, Pesca, Meio Ambiente e Defesa Civil de Cascavel, manifestou repúdio ao que classificou como um “ato de violência contra o tubarão“, a Associação dos Moradores do Povoado de Balbino ressaltou que vai apurar os maus-tratos ao animal e fornecer apoio à Polícia, a Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceará (SEMACE) disse que “tomou conhecimento sobre o ocorrido e que atuará em cooperação com a Polícia Ambiental para punição dos envolvidos”, Prefeitura de Cascavel repudiou o ato, a Polícia Civil esclareceu que a Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente (DPMA) instaurou procedimento policial para apurar a morte do tubarão e o chefe de fiscalização do Ibama, Miller Holanda, declarou que o órgão também coleta informações para  localizar os responsáveis.

No fim da tarde de hoje, seis pessoas envolvidas no crime de maus tratos contra o tubarão-cabeça-chata foram identificadas, autuadas e intimadas a depor na Delegacia de Crimes Ambientais do Ceará.

Organizações de pesquisa como a Sociedade Brasileira pra o Estudo dos Elasmobrânquios (SBEEL) e membros da sociedade civil também se manifestaram condenando os fatos e cobrando além da identificação, a punição dos responsáveis pelo crime. A EcoBioGeo também se manifesta cobrando providências.

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Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância.
Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições.
Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI.
Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

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