O sítio dos naufrágios do Germania e do Bretagne

Os meus primeiros mergulhos em naufrágio ocorreram lá pela década de 1980 quando íamos visitar o “primeiro” e o “segundo navios” na praia do Farol da Barra.

O navio conhecido por “primeiro navio” era na verdade o SS Maraldi, um cargueiro a vapor que encalhou e naufragou em 18 de fevereiro de 1875 em um local com aproximadamente 5,0m de profundidade a menos de 200m da praia e tem como principal característica uma enorme caldeira que depois de aproximadamente 145 anos desde o afundamento está desmoronando.

Devido à proximidade com a costa é difícil alguém fazer um mergulho no Parque Marinho da Barra, seja com equipamento SCUBA ou mesmo apenas com o equipamento básico (máscara, snorkel e nadadeiras), não passar por cima dos seus destroços.

Estrutura do Germânia (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Seguindo em direção oposta à da praia, em direção à águas menos rasas, distante uns 100m dos destroços do SS Maraldi estão os destroços que pelo menos até meados da década de 1990 os mergulhadores conheciam por “segundo navio”, uma área muito maior que a área dos destroços do SS Maraldi, em uma área com profundidade variando entre 6,0m e 9,0m por onde estão espalhadas várias caldeiras, trechos do cavername, âncoras (existem pelo menos 9 grandes âncoras próximas aos naufrágios) e outras estruturas que na verdade não pertencem a único navio, mas a dois navios distintos, de origens distintas e que naufragaram em períodos distintos, um sobre o outro.

Hoje um mergulhador que não tenha estudado os croquis do naufrágio, apenas olhando os destroços não consegue compreender onde começa e onde termina cada um dos dois navios, qual peça, qual caldeira pertence a qual navio, exceto pelas caldeiras, a proa do Germânia e o mastro do Bretagne.

Proa do Germania (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

O naufrágio do cargueiro a vapor Germania

O vapor Germania que foi construído pelo estaleiro Caird & Co. em Greenock na Escócia, pertencia ao armador Hamburg Amerikanische Packetfahrt Aktien Gesellschaft (Alemanha)  e estava comissionado para Hamburg South America Line quando na noite de 22 de setembro de 1876 ao tentar sair da baía de Todos os Santos percebeu que havia um problema, o sistema de leme rompeu fazendo com que a embarcação derivasse até encalhar e afundar parcialmente nas pedras próximo ao Farol da Barra.

Durante meses foram feitas várias tentativas sem sucesso de esvaziar os porões do navio fazendo-o flutuar novamente e então tirá-lo de lá e aos poucos as ações do mar foram mais fortes e as estruturas que ficaram emersas acabaram desabando.

Estrutura do Germania (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Dados do Naufrágio

  • Nome da embarcação: Germânia
  • Nacionalidade da embarcação: Alemã
  • Estaleiro: Caird & Co. (Greenock, Escócia)
  • Ano de construção: 1870
  • Dimensões
    • Comprimento: 100m
    • Boca: 11,7m
    • Calado: desconhecido
  • Tonelagem bruta: 2.876 toneladas
  • Proprietário: Hamburg Amerikanische Packetfahrt Aktien Gesellschaft (Alemanha)  
  • Tipo de embarcação: Cargueiro
  • Material do casco: Metal
  • Propulsão da embarcação: Hélice (porém podia ocasionalmente armar velames)
  • Motorização: Motor a vapor com hélice única
  • Data do afundamento: 22 de setembro de 1875
  • Motivo do afundamento: Encalhe
  • Situação atual de conservação: Desmantelado
Caldeira solitária do Bretagne (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

O naufrágio do paquete a vapor Bretagne

Quase 27 anos após o acidente que resultou no afundamento do Germânia, em 12 de setembro de 1903 quando partia com destino a Marselha com sua carga composta por 10.000 sacas de café, ainda próximo ao porto de Salvador a corrente do leme do paquete a vapor Bretagne, pertencente à Société Générale de Transports Maritimes, na altura do Forte de São Marcelo, partiu a corrente do leme e ficou à deriva sendo carregado pelas fortes correntezas de vazante em direção à boca da Barra até bater nos destroços do Germânia e encalhar.

Dois rebocadores foram enviados ao local na intenção de desencalhar o Bretagne, porém sem sucesso.

Ao tomar ciência da extensão dos danos causados á embarcação por conta do acidente o comandante do Bretagne se suicida com um tiro na cabeça.

Duas das caldeiras do trio de caldeiras do Bretagne (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Dados do Naufrágio

  • Nome da embarcação: Bretagne
  • Nacionalidade da embarcação: Francesa
  • Estaleiro: Chantiers & Ateliers de la Méditerranée de La Seyne (Toulon, França)
  • Ano de construção: 1876
  • Dimensões
    • Comprimento: 87,95m
    • Boca: 11,9m
    • Calado: desconhecido
  • Tonelagem bruta: 2.209 toneladas
  • Proprietário: ciété Générale de Transports Maritimes (França)  
  • Tipo de embarcação: Paquete
  • Material do casco: Metal
  • Propulsão da embarcação: Hélice (porém podia ocasionalmente armar velames)
  • Motorização: Motor a vapor do tipo compound engine com hélice única
  • Data do afundamento: 12 de setembro de 1903
  • Motivo do afundamento: Encalhe
  • Situação atual de conservação: Desmantelado
Tampa de porão do Germania (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

A situação atual do sítio dos naufrágios

Boa parte dos destroços de ambos os navios estão dispostos praticamente um sobre o outro, porém em geral os restos das embarcações encontram-se paralelas, estando os destroços do Bretagene no bombordo dos destroços do Germania da popa até meia nau onde se encontra o sítio das caldeiras, das quais quatro pertencem ao Germania e estão em melhor estado de conservação que as caldeiras do Bretagne.

Das caldeiras em direção à proa os destroços do Bretagene aparentemente cruzam os destroços do Germânia. Neste trecho o Bretagne tem mais estruturas espalhadas e não existem registros de onde está a sua proa, já os destroços do Germânia que se estendem bem mais que o Bretagne culminam na estrutura de proa adernada sobre o bombordo.

Trio de caldeiras do Bretagne (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Seguindo em uma diagonal logo após o trecho que os destroços do Bretagne cruzam os destroços do Germânia encotram-se espalhadas pelo menos 9 grandes âncoras que acredita-se pertençam não só ao Germânia e ao Bretagne mas também a diversas outras embarcações que encalharam na região e conseguiram ser socorridas, além quem sabe, de âncoras do SS Maraldi e do Cap Frio, navio que também está naufragado nesta região, a uns 200m dos destroços do Germânia e do Bretagne em direção ao Farol da barra.

Dentre as peças possíveis de serem identificadas, além do cavername e das caldeiras estão o escovém do Germânia, situado próximo à proa do navio, mastros do Bretagne, tampas de porão, estivas, cabeços de amarração, encanamento do vapor e uma base circular de sustentação de mastro, entre outras.

Cabeços de amarração do Germania (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

O mergulho no sítio dos naufrágios

Apesar de estar próximo à costa o sitio dos naufrágios do Germânia e do Bretagne sofre influência das correntes de maré, especialmente da maré de vazante, desta forma o mergulho durante a vazante é extenuante e geralmente a visibilidade não está muito boa, porém tanto nos estofos da baixamar quanto na preamar e especialmente na maré de enchente, quando coincide com o período de maré morta a visibilidade fica surpreendente, ultrapassa com facilidade os 15m na horizontal nos meses de verão ou 7m nos meses de mais vento.

É um mergulho raso, em poucos pontos a profundidade ultrapassa os 8,0m sendo a profundidade ao longo da maior parte dos destroços em torno de 6,5m.

Estrutura de um dos trechos de cavername de um dos dois naufrágios (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Como é um trecho que sofre influência tanto das águas do oceano Atlântico quanto da baía de Todos os Santos e a água neste local é renovada completamente varias vezes por dia a temperatura costuma ser um pouco mais baixa que no interior da baía, chegando aos 28ºC no verão e 26ºC nos meses mais frios, ou seja, mesmo com essa diferença em relação ao interior da baía, em se comparando com a média da temperatura da água nos principais pontos de mergulho do país é quente o ano todo. Praticamente todas as operadoras de mergulho de salvador, mesmo as que não operam mergulho embarcado tem este sítio em sua programação rotineira de mergulho.

Mastro do Germania (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Dados do Mergulho

  • Localização: Parque Natural Municipal Marinho da Barra, na enseada do Farol da Barra
  • Coordenadas
    • Latitude: -13.008564º
    • Longitude: -38.535894º
  • Profundidades
  • Mínima: 4.5m
  • Máxima: 8.5m
  • Visibilidade média: em média superior a 15m na horizontal na maré morta (luas crescente e minguante), e aproximadamente 7m na horizontal na maré grande (luas nova e cheia)
  • Distância da costa: 390m
  • Tempo de navegação à partir do Porto de Salvador: aproximadamente 20 minutos
  • Nível mínimo de certificação: Básico (Open Water)
Base de mastro provavelmente do Germania (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

A biota dos naufrágios

Assim como o SS Maraldi o sítio do Germania e do Bretagne está situado dentro da poligonal do Parque Natural Municipal Marinho da Barra uma área riquíssima em biodiversidade, tanto de organismos bentônicos quanto de peixes e outros animais como a tartarugas-de-pente (Eretmochelys imbricata) e a tartaruga-verde (Chelonia midas) que ocasionalmente aparecem passeando pelos destroços.

Com relação aos peixes um destaque para o grande número de Crisurus (Microspathodon chrysurus) que pode ser encontrado tanto na forma juvenil quanto adulta, além do belíssimo budiãozinho-de-noronha (Thalassoma noronhanum), salemas (Anisotremus virginicus), sargos (Anisotremus moricandi e A.surinamensis), cardumes de quatinga (Haemulon aurolineatum), cardumes de barrigudinhos (Pempheres schomburgki), cardumes de cromis (Chromis multilineata), donzelas (Stegastes spp.), cardumes de sargentinhos (Abudefduf saxatilis), barbeiros e cirurgiões (Acanthurus spp.), borboletas (Chaetodon striatus), rufus (Bodianus rufus), budiãozinho-verde (Halichoeres poeyi), pinhanha (Halichoeres brasiliensis), budião-batata (Sparisoma axillare), budião-batata-sinaleiro (Sparisoma frondosum), budião-dentuço (Sparisoma radians), ariacó (Lutjanus synagris), dentão (Lutijanus jocu), guaraiuba (Ocyurus chrysurus), peixes-lagarto (Synodus spp.), mutucas (Myrichthys spp.), moreias (Gymnothorax spp.), jaguaraçá (Holocentrus adscensionis), fogueirinhas (Myripristis jacobus), macaquinho (Ophioblennius trinitatis), sarampinho (Amblycirrhytus pinos), jabu (Cephalopholis fulva), garoupa-gato (Epinephelus adscensionis), garoupinha-mármore (Alphestes afer), badejos-sabão (Rypticus spp.), grama (Gramma brasiliensis), parus e frades (Pomacanthus spp.), ciliares (Holocanthus ciliaris), pescadinhas-de-pedra (Odontoscyon dentex), beatriz e mangangás (Scorpaena spp.), peixe-escorpião-pequeno (Scorpaenodes caribbaeus), peixe-porco-pintado (Cantherhines macroceros), porquinho-listrado (Cantherhines pullus), taocas (Acanthostracion spp.), cangulo-rei (Balistes vetula), baiacu-de-recife (Canthigaster figueiredoi), baiacus-espinho (Chilomycterus spp. e Diodon sp.), baiacus (Sphoeroides sp.) e peixes de passagem como sororocas (Scomberomorus regalis) e carangídeos entre muitos outros.

Com relação a fauna bentônica várias espécies de ascídias, esponjas, corais, octocorais, etc com destaque para a Plexaurella sp. que tem nessa região a sua maior concentração na baía de Todos os Santos além de colônias do coral-casca-de-jaca (Montastraea cavernosa), algumas corais-cérebro (Mussismilia hispida), coral-estrelado (Siderastrea cf. stellata), coral-mole-brasileiro (Neospongodes atlanticus), octocoral (Carijoa riisei), coral-de-fogo (Millepora spp.), ouriço-sputnik (Eucidaris tribuloides), pinauna (Echinometra lucunter), ouriço-de-espinhos-longos (Cidaris antillarum), estrelas-do-mar (Linckia guildingii), crinoides (Tropiometra spp.), búzio-macumba (Cyphoma macumba), polvo (Octopus vulgaris), caranguejo-aranha (Stenorhynchus seticornis), camarão-palhaço (Stenopus hispidus), lagostas (Panulirus spp.) ascídia-negra (Phallusia nigra), tunicados coloniais (Eudistoma spp.), entre muitos outros.

Trecho de cavername provavelmente do Germania (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Outros usos do sítio

Apesar de protegido por estar dentro de um Parque Marinho, assim como para o SS Maraldi, os destroços dos naufrágios do Germania e Bretagne sofrem com a quantidade de lanchas e em barcações de lazer que jogam suas âncoras sobre suas estruturas para “curtir” o pôr-do-sol nos fins de semana.

Jogar âncora e danificar estruturas de naufrágios é proibido no Brasil, mas de qualquer forma o Plano de Manejo do Parque deverá definir áreas de fundeio nos arredores do parque, criar poitas para o fundeio de embarcações de mergulho associadas à AMERB e limitar número de visitantes por dia nas águas do Parque.

Os destroços dos naufrágios atraem também pescadores submarinos e coletores de organismos ornamentais, atividades que  deverão ser proibidas, ou regulamentada pela implantação do Plano de Manejo do Parque.

Uma das 9 (nove) âncoras presentes no sítio dos naufrágios do Germania e do Bretagne (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)
Outra das 9 (nove) âncoras presentes no sítio dos naufrágios do Germania e do Bretagne (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)
Outra das 9 (nove) âncoras presentes no sítio dos naufrágios do Germania e do Bretagne (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)
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Autor(es)

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Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância.
Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições.
Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI.
Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

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