A caldeira do Maraldi está desabando

Atração à parte além do próprio naufrágio em si a caldeira do naufrágio Maraldi está desabando e em breve deve desmantelar por completo.

O Maraldi era um vapor inglês com casco de aço, medindo 67m de comprimento, que naufragou na noite de 28 de fevereiro 1875 em uma enseada de Salvador, ao lado do Farol da Barra, em um local com aproximadamente 5.5m de profundidade atualmente compreendida na poligonal do Parque Natural Municipal Marinho da Barra.

Apesar de completamente desmantelado e com quase 145 anos passados desde que foi à pique o naufrágio ainda mantinha praticamente intacta no que diz respeito à sua estrutura uma enorme caldeira com algo em torno de 3.5m a 4m de diâmetro, apenas com algumas aberturas laterais.

Foto fantástica do Pedro Millet Meirelles que foi capa do excelente e importantíssimo livro “Baía de Todos os Santos : Aspectos Oceanográficos” organizado pela Vanessa Hatje e por Jailson B. de Andrade e lançado pela EDUFBA em 2009. A foto mostra como era a caldeira até pelo menos 2018.

A caldeira estava conservada de tal forma que era possível inclusive fazer uma pequena penetração atravessando a caldeira de um lado ao outro, porém desde o final de 2019 os mergulhadores que frequentam este naufrágio vinham notando que a sua estrutura estava fragilizada e já evitavam fazer penetrações.

https://www.youtube.com/watch?v=oK8jm0WYZqQ
Vídeo gravado em 2015 e disponibilizado no canal do Rodrigo Bernardo no YouTube mostrando as condições ainda preservadas da caldeira. nas imagens é possível ver um mergulhador atravessando a caldeira (Fonte: YouTube)

O naufrágio do Maraldi, devido a sua baixa profundidade, proximidade da costa (aprox. 100m) e excelente visibilidade (mínima de 10m na horizontal podendo ultrapassar os 30m nos períodos de maré morta) é frequentado por mergulhadores recreativos tanto utilizando aparelho SCUBA e guiados por operadoras de mergulho quanto por mergulhadores independentes, seja utilizando SCUBA ou no mergulho livre e por pescadores submarinos. A região onde fica o naufrágio, apesar de protegida na forma de Parque Municipal desde o início de 2019 ainda recebe nos fins de semana de sol ou em períodos festivos grande quantidade de embarcações que ancoram na região, inclusive sobre as estruturas do naufrágio para “curtir” o belíssimo pôr-do-sol que também pode ser vislumbrado do café do Forte de Santo Antônio (Farol da Barra) como do gramado ao redor do mesmo forte.

A caldeira do Maraldi ainda mantendo um perfil redondo apesar de já estar bastante comprometida em fevereiro de 2020 (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Em fevereiro de 2020 foi feito um mergulho no Maraldi e nesse dia foi possível perceber que a caldeira já não estava mais “redonda”, deixando claro que estava para desabar e no dia 27 de setembro de 2020 (ontem) ao cair na água, apenas colocando o rosto na água foi possível perceber que o topo da caldeira parecia estar mais fundo, a mais de 3m da superfície, a maré estava cheia, mas mesmo na maré cheia a distância entre a superfície e o topo da caldeira pouco ultrapassava os 2.0m, estando o seu topo inclusive inclinado, o seu lado voltado para o Farol estava ainda mais baixa que o lado oposto, ou seja, a estrutura que a sustenta já começou a desabar.

A caldeira do Maraldi já “achatada” no dia 27 de setembro de 2020 (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Obviamente considerando que se passaram pelo menos 145 anos desde o naufrágio e que o ambiente marinho atua na degradação das estruturas não deve ser surpresa que um dia inclusive a caldeira vai desabar por completo, porém algumas atitudes que podem ser evitadas com o uso consciente do patrimônio protegido parecem estar acelerando esse processo e se não forem controladas esse processo pode ser acelerado.

Close no lado da caldeira virado para o Farol da Barra evidenciando o grau de achatamento da estrutura. 27 de setembro de 2020 (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Não é incomum na maré baixa mergulhadores livres e banhistas, em especial os que chegam ao sítio nas lanchas que lá ancoram ficarem de pé sobre a caldeira, atitude que atribui ainda mais peso a ser suportado pela estrutura reduzindo a sua resistência.

Apesar das lanchas evitarem jogar âncora sobre a caldeira, já que quase sempre é possível vê-la da superfície ou muitos dos que ainda mantém esse hábito já conhecem o local e portanto a evitam, não foram raras as ocasiões em que foi registrado por mergulhadores a âncora na areia ou sobre a estrutura dos cavernames do naufrágio (neste caso causando outro tipo de impacto ao patrimônio histórico) próximas à caldeira de tal forma que seu cabo roçava as estruturas da caldeira, e casos em que ao tentar retirar essa âncora, ao puxá-la, ela enganchar na caldeira.

Fratura na estrutura da caldeira do Maraldi registrada em fevereiro de 2020, ainda antes do desabamento parcial (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Atualmente os naufrágios com mais de 100 anos são considerados patrimônio cultural de acordo com a Carta do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS/UNESCO) e protegidos internacionalmente desde 1994 pelo Artigo 303º da Convenção das Nações Unidas para o Direito do Mar (CNUDM) e nacionalmente pela Lei nº 7.542 de 1986, modificada pela Lei nº 10.166 de 2000 que determina como protegido pela união todo patrimônio cultural subaquático.

E protegido localmente uma vez que atualmente os destroços do Maraldi estão contidos na poligonal do Parque Natural Municipal Marinho da Barra instituído pelo Decreto 30.953 de 2019 onde o naufrágio do Maraldi é citado como patrimônio cultural a ser preservado.

Caldeira do Maraldi fotografada em 2019 (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

FONTES

Avec43; Tony, A. 2013. SS Maraldi (+1875). Wrecksite [Link]

Brasil Mergulho. Maraldi. Brasil Mergulho [Link]

Carvalho, M. Naufrágio Maraldi. Naufrágios do Brasil [Link]

Guimaraes, R.S. 2011. Ações para proteção do patrimônio cultural subaquático brasileiro: Projeto Atlas dos Naufrágios de Interesse Histórico da costa do Brasil. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História (SNH/ANPUH), 7pp [PDF]

Maia-Nogueira, R. 2019. O Naufrágio do Maraldi. EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico [Link]

Cartaz/Folder do Projeto Maraldi, uma intervenção artística no naufrágio do Maraldi 1ue aconteceu em 2010. No cartaz é possivel ver a caldeira ainda bem preservada em outra foto do Pedro Miller Meirelles.
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Autor(es)

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Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância.
Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições.
Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI.
Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

About Rodrigo Maia-Nogueira

EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico. Popularizando as ciências marinhas com informações de qualidade.

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