Desinformações sobre o Dragão-azul estão sendo espalhadas nas redes sociais

Desde o dia 21 de julho estamos recebendo relatos de avistagem de Dragões-azul (Glaucus atlanticus) nas praias de Salvador, porém além dos relatos de avistagem estamos recebendo também muitas mensagens com informações equivocadas disseminando desinformação nas redes sociais.

Em uma postagem onde o autor utiliza a referencia como tendo sido uma página sobre o animal no Wikipedia (apesar do conteúdo ser bem diferente do que diz a pagina) diz:

Então vamos lá, a postagem afirma que o Dragão-azul é uma espécie exótica que chega ao nosso litoral transportado em navios, afirmando que na verdade ele é originário da Ásia e da África do Sul, porém o Dragão-azul é cosmopolita ocorrendo na região tropical e temperada de todos os oceanos, inclusive no litoral brasileiro.

Não só a informação de que eles chegaram ao nosso litoral vindo de navios é equivocada, como a ideia de que ele é originário apenas da Africa do Sul e da Ásia.

O texto também diz que o Dragão-azul é um dos animais mais venenosos que existe nos oceanos, dando a ideia de que se trata de um animal perigoso para o ser humano. Bom, o Dragão-azul não produz veneno, o que ocorre é que ele se alimenta da água viva Caravelas-portuguesas (Physalia physalis) e tem a capacidade de armazenar e potencializar a toxina da Caravela em minúsculos sacos nas extremidades dos seus apendices (popularmente chamados de dedos ou tentáculos) do primeiro grupo de apendices (ele possui 3 grupos de cada lado), porém por ser um animal muito pequeno a quantidade de toxina que ele é capaz de armazenar não é suficiente para causar danos aos seres humanos.

Existem relatos de casos onde houve intoxicação por conta da ingestão desses bichos e não por conta do contato com a pele, portanto é importante ficar atento para que crianças não o coloquem na boca.

O texto afirma ainda que esse pequeno animal não tem predadores naturais, o que também não é verdade, a avaliação de conteúdos estomacais de Tartarugas-cabeçudas (Caretta caretta) feita por Frick e colaboradores (2009) mostraram que o Dragão-azul é bastante comum na dieta destas tartarugas.

Muito cuidado quando receber alertas pelas redes sociais, verifiquem as fontes, o Wikipedia tem muita informação interessante mas se trata de uma enciclopédia e não de uma referência científica, busque por sites e referencias científicas, de instituições que realmente trabalham ou pesquisam os animais ou os fenômenos naturais … e o mais importante, não espalhe desinformação, não repasse mensagens que recebeu de pessoas que não entendem do assunto tratado na mensagem, sejam cautelosos.

Dragão-azul (Glaucus atlanticus) (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Os Dragões-azuis estão sim aparecendo em grande quantidade nas praias, não só em Salvador mas em diversas praias do país e isso sempre ocorre durante a ocorrência de ventos fortes vindos do oceano, os mesmos ventos que empurram as Caravelas para as praias e estas sim, podem provocar sérias queimaduras.

Dragões-azul (Glaucus atlanticus) (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Para o Brasil, além de Salvador, existem registros publicados para a praia do Cassino no Rio Grande do Sul, praia Florianópolis em Santa Catarina, praia do Guarujá em São Paulo, praia da Lagoa do Pau e no ecossistema recifal do Francês em Alagoas, além de registros ainda não publicados porém divulgados na imprensa para Tamandaré, em Pernambuco.

Saiba mais sobre o Dragão-azul aqui, na postagem que fizemos aqui no blog dia 23 de julho.

REFERÊNCIAS

Agudo-Padrón, A.I. 2014. Thirteen new records to inventory of marine molluscs species from Santa Catarina state, Central South Bazil. Brazilian Journal of Biological Sciences, 1(2):35-37 [Researchgate]

Correia, M.D.; Sovierzoski, H.H. 2007. Primeira ocorrência do Opisthobranchia pelágico Glaucus atlanticus Forster, 1777 para o litoral do estado de Alagoas, Brasil. XX Encontro Brasileiro de Malacologia, p.213

Frick, M.G.; Williams, K.L.; Bolten, A.B.; Bjorndal, K.A.; Martins, H.R. 2009. Foraging ecology of oceanic-stage loggerhead turtles Caretta caretta. Endangered Species Research, 9:91-97 [Researchgate]

Lindner, A. (Org) 2014. Vida Marinha de Santa Catarina. Editora UFSC, 132pp [Página do livro]

Padula, V.; Bahia, J.; Correia, M.D.; Sovierzoski, H.H. 2012. New records of opisthobranchs (Mollusca: Gastropoda) from Alagoas, Northeastern Brazil. Marine Biodiversity Records, 5:e57, 11pp [Researchgate]

Pinotti, R.M.; Bom, F.C.; Muxagata, E. 2019. On the occurrence aand ecology of Glaucus atlanticus Forster, 1777 (Mollusca: Nudibranchia) along the Southwestern Atlantic Coast. Anais da Academia Brasileira de Ciências, 91(1):e30180154 [PDF]

Silva, A.F.F.; Santos, C.R.M.; Monte-Oliveira, B.F.; Freitas, L.M. 2018. Registro de ocorrência de Glaucus atlanticus Forster, 1777 (Mollusca: Gastropoda) na praia da Lagoa do Pau, Alagoas, Brasil. Anais do XXXVII Congresso Brasileiro de Zoologia : área temática biogeografia e distribuição geográfica, p.290.

Vannucci, M. 1939. Sobre uma lesma planctônica do litoral de Guarujá (Glaucus atlanticus Forst.). Bol. Biol. 4(3): 415-422.

About Rodrigo Maia-Nogueira

Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância. Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições. Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI. Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

6 thoughts on “Desinformações sobre o Dragão-azul estão sendo espalhadas nas redes sociais

  1. Acabei de achar alguns aqui na praia de Ilha Comprida-SP. Estavam morrendo na areia. Eu nunca tinha visto, fui pesquisar no google e vi muitos sites dizendo o quanto ele é letal,fiquei com medo! Até peguei uns,coloquei num pote e depois joguei de volta no mar.

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