Peixes em estação de limpeza perdem a noção do perigo?

Como já vimos na postagem feita no fim de março deste ano as interações de limpeza, onde um peixe ou um camarão recebe a visita de outro peixe para remover ectoparasitos e pele morta são comuns em ambientes recifais tropicais.

Já se sabe que os grandes predadores ignoram os seus instintos enquanto estão sendo limpos e não predam os peixes e camarões que estão na função de limpador naquele momento, mesmo os peixes que estão ainda aguardando serem limpos, respeitam as estações de limpeza e não predam os pequenos limpadores enquanto estão nesta função.

Recentemente pesquisadores brasileiros avaliaram se os peixes que estão em uma estação de limpezas, sendo limpos, além de ignorar o instinto de predação também sofriam modificações na avaliação de riscos.

Budião-papagaio (Sparisoma amplum) (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

A hipótese foi testada em Budiões-papagaio (Sparisoma amplum) e Jaguaraçás (Holocentrus adscensionis), espécies de tamanho e comportamento distintos, em estações de limpeza de Budiõezinhos-de-Noronha (Thalassoma noronhanum). Durante os mergulhos os pesquisadores registraram e compararam a reação de fuga destes peixes em relação à aproximação quando estavam sendo limpos e quando não estavam.

Jaguaraçá (Holocentrus adscensionis) (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Os testes sugerem que os peixes avaliam o risco, porém preferem arriscar um pouco mais e permitir que o potencial predador se aproxime mais que o tolerado normalmente considerando que os ganhos com a limpeza valem o risco.

Os pesquisadores levantam com isso a hipótese também de que a tolerância da aproximação de potenciais predadores esteja associada à uma redução nos níveis basais de cortisol como consequência de uma provável estimulação tátil dos peixes limpadores ao anunciarem os seus “serviços” alterando a percepção de risco, porém não se sabe ainda como ocorre a comunicação entre todos os peixes limpadores, se todos utilizam da estimulação tátil, em especial com relação ao Budiãozinho-de-Noronha (espécie avaliada no estudo), e os seus “clientes”.

Budiãozinho-de-Noronha (Thalassoma noronhanum). terminal (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Outra abordagem está associada ao aumento da tolerância da abordagem nas estações de limpeza que permite que grandes predadores ignorem os seus instintos e não ofereçam risco aos peixes limpadores. Esta tolerância pode dar a sensação de que os animais envolvidos na atividade estão em uma zona segura já que este comportamento reduz os comportamentos agressivos e intenções predatórias. Mais detalhes e informações podem ser obtidos no estudo do Vinícius Giglio e colaboradores intitulado “Client reef Fish tolerate closer humam approaches while being cleaned” publicado hoje no periódico Journal of zoology que pode ser acessado na página do periódico ou baixado no site do pesquisador.

FONTES

Bshary, R.; Oliveira, R.F.; Oliveira, T.S.F.; Canario, A.V.M. 2007. Do cleaning organisms reduce the stress response of client reef fish? Frontiers in Zoology, 4:21, 8pp. [Researchgate]

Cheney K.L.; Bshary R.; Grutter A.S. 2008. Cleaner fish cause predators to reduce aggression towards bystanders at cleaning stations. Behavioural Ecology 19:1063–1067 [Researchgate]

Francini-Filho, R.B.; Moura, R.L.; Sazima I. 2000. Cleaning by the wrasse Thalassoma noronhanum, with two records of predation by its grouper client Cephalopholis fulva. Journal of Fish Biology 56:802–809 [Researchgate]

Giglio, V.J.; Nunes, J.A.C.C.; Ferreira, C.E.L.; Blumstein, D.T. 2000. Client reef Fish tolerate closer humam approaches while being cleaned. Journal of Zoology, jzo.12814:6pp [PDF].

Schirmer, A.; Jeurhasan, S. Mathuru, A.S. 2013. Tactile stimulation reduces fear in fish. Frontiers in Behavioral Neuroscience, 7(167):10pp. [Researchgate]

Soares, M.C.; Oliveira, R.F.; Ros, A.F.H.; Grutter, A.S.; Bshary, R. 2011. Tactile stimulation lowers stress in fish. Nature Communications, 2:534, 6pp. [Researchgate]

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Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância.
Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições.
Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI.
Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

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