Cavo Artemidi, a lenda

Maior e mais surpreendente naufrágio da costa brasileira desde o seu afundamento até ser quase que completamente coberto pelo banco de Santo Antônio.

No dia 19 de setembro de 1980 partia de Salvador em direção à Brighton na Inglaterra  carregado com 16.800 toneladas de ferro-gusa o enorme cargueiro grego Cavo Artemidi com seus 180 m de comprimento.

Contando com a economia de CR$ 3.000,00 o comandante do Artemidi, Anastassios Tsilikounas recusou o serviço da praticagem e dos rebocadores e como a Lei de Murphy não perdoa, as fortes correntezas da baía de Todos os santos acabaram por arrastar o navio que acabou perdendo o leme ao bater no banco da Panela no interior da baía , o navio então derivou e acabou encalhando no banco de Santo Antônio na saída da baía.

Cavo Artemidi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Durante alguns dias rebocadores e o navio de resgate da Marinha Brasileira, Gastão Montinho, tentaram de todas as formas salvar o navio, porém sem sucesso e uma semana após o encalhe, por conta do peso da carga, da força da água nas fortes correntezas de maré e das condições meteorológicas nada favoráveis as chapas de aço começaram a abrir e fazer água e por fim o cargueiro foi à pique.

O naufrágio do cargueiro Cavo Artemidi sendo noticiado por Sérgio Chapelin no Jornal da Globo em setembro de 1980 [Fonte: YouTube]

A profundidade do local do afundamento nesta época era de pouco mais de 30 metros e por conta disso o castelo de popa se manteve à flor d ‘ água por algum tempo até ser desmantelado.

Pratos do Cavo Artemidi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Nos anos seguintes várias expedições, autorizadas e não autorizadas foram empreendidas para o resgate de peças do navio, tendo em 1982 a empresa Villafer arrematado em leilão os direitos de exploração dos destroços, direito que em 1984 foi repassado para a empresa Hernandes Anticorrosão e Pintura. Nesse período os exploradores fizeram cortes de maçarico nas estruturas para abrir os porões e permitir a retirada dos lingotes de ferro-gusa que haviam se fundido por conta da corrosão.

Pratos do Cavo Artemidi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Não faltam relatos sobre as ações de mergulhadores lendários de Salvador desbravando os corredores e os porões do navio recuperando peças de bronze, cobre, prataria e muito mais … até lendas sobre uma das pás do enorme hélice que enquanto era rebocada à m eia água para não chamar atenção acabou se soltando e se perdeu no meio do caminho.

Rufus (Bodianus rufus) fotografado no naufrágio do Cavo Artemidi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Nos anos 1990 com a “febre” do mergulho recreativo Salvador chegou a ser destino de desejo da maioria dos mergulhadores do país que queriam conhecer aquele enorme navio, com pouco mais de 160 m de comprimento, ainda intacto, em uma profundidade que variava entre 16 m e 30 m, em uma água cuja temperatura variava entre 27ºC e 30ºC e uma visibilidade que nos piores dias ultrapassava os 15 m na horizontal e nos dias de maré morta passava dos 40 m, em alguns dias inclusive parecia que estávamos mergulhando em água mineral.

Boquinha (Paranthias furcifer) fotografado no Cavo Artemidi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

A biodiversidade era uma atração à parte, raias-chita (Aetobatus narinari), raias-prego (Hypanus americanus), cardumes de salemas (Anisotremus virginicus), sororocas (scomberomorus regalis), milhares de budiões-fantasma (Clepticus brasiliensis), cardumes gigantescos de quatingas (Haemulon aurolineatum), meros (Epinephelus itajara) [isso mesmo, no plural], bijupirás (Rachycentron canadum), caramurus (Gymnothorax funebris), mangangás (Scorpaena plumieri), boquinhas (Paranthias furcifer), cardumes de galos (Selene sp.), de xaréus (Carangoides sp. e Caranx sp.), dentões (Lutjanus jocu), jabus (Cephalopholis fulva), borboletas (Chaetodon striatus), parus (Pomacanthus paru), frades (Pomacanthus arcuatus), tricolors (Holacanthus ctricolor), ciliares (Holacanthus ciliares), budiões (Scarus sp. e Sparisoma sp.), rufus (Bodianus rufus), budiãozinho-verde (Halichoeres poeyi), budiãozinho-de-Noronha (Thalassoma noronhanum), enxadas (Chaetodipterus faber), barbeiros (Acanthurus sp.), cardumes de peixes-folha (Aluterus sp.), rêmoras (Echeneis naucrates), sargentinhos (Abudefduf saxatilis), marias-pretas (Stegastes fuscus), pescadinha-de-pedra (Odontoscyon dentex), barrigudinhos (Pempheres schomburgki), fogueirinhas (Myripristis jacobus), xiras (Haemulon squamipinna), biquara (Haemulon parra), jaguaraçás (Holocentrus adscensionis), garoupinhas-gato (Epinephelus adscensionis), badejos (Mycteroperca bonaci), enormes baiacus-espinho (Diodon hysrrix), grama (Gramma brasiliensis), cromis (Chromis multilineata), pinhanhas (Halichoeres brasiliensis), polvos (Octopus vulgaris), tartarugas (Chelonidae), e isso é só o que consigo lembrar sem precisar olhar as anotações ou as fotos e vídeos de recordação, mas não se limitava a somente estas espécies, inclusive desde a década de 1990 com mais de 700 horas de mergulho na baía de Todos os Santos foi o único ponto de mergulho da baía onde encontrei, em uma única oportunidade, um lambarú (Gynglimostoma cirratum).

Garoupinha-gato (Epinephelus adscensionis) fotografada no convés do Cavo Artemidi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

O Cavo Artemidi foi construído em 1959 quando recebeu o nome de batismo de Betty incorporando a empresa de navegação Skibs A/S Kim (Oslo) até ser adquirido em 1978 pela empresa grega Lydy Naviera quando recebeu o nome de Cavo Artemidi.

O Cavo Artemidi ainda ostentando o nome Betty [Fonte: Wrecksite]

Não era incomum ao longo de alguns anos chegar para mergulhar no Cavo Artemidi e encontrar 3 ou 4 outros barcos de outras operadoras já fundeados e prontos para mergulhar, cada um dos barcos com sua lotação máxima, era a principal atração de mergulho de Salvador e mesmo com tanta gente em baixo d’ água, por conta do seu enorme tamanho (180 m de comprimento) e das mais variadas rotas possíveis permitindo desde mergulhadores básicos mergulharem sobre o convés entre 12 m e 16 m de profundidade aos mais avançados mergulharem próximo ao eixo do hélice, nos porões de carga, na praça de máquinas, dormitório, “salão das pias”, corredores laterais, banheiros …

Vídeo de um mergulho no Cavo Artemidi a cerca de 10 anos atrás [Fonte: Brasil Mergulho / YouTube]

O Artemidi chegou a ter matérias enormes mais de uma vez nas principais revistas de mergulho do país, em algumas destas sendo inclusive capa em mais de uma oportunidade, Scuba, Mergulhar e Deco Stop, além de outras revistas de fotografia, turismo e meio ambiente como a Caminhos da Terra e a Fotographos, entre outras. Era a meca do mergulho costeiro no Brasil.

Mergulho com Rebreather no Cavo Artemidi em 2012 [Fonte: László Mócsári / YouTube]

Como tudo que é bom, dura pouco, uma vez que o navio naufragou na borda de um banco de areia móvel, com o passar dos anos e graças às fortes correntezas de vazante na boca da baía de Todos os Santos a areia do banco de Santo Antônio a areia foi se depositando aos poucos sobre a ao redor do navio.

Um mergulho em 2013 no naufrágio do Cavo Artemidi com a operadora UWBahia [Fonte: YouTube]

O primeiro trecho a sumir foi o porão de proa, depois as paredes dos porões desabaram e a areia passou a tomar conta dos outros porões e em todo o redor do navio reduzindo a profundidade máxima até em 2016 cobrir todo o convés.

Mergulho realizado em 2015 no naufrágio do Cavo Artemidi [Fonte: YouTube]

No início de 2019 apenas uma pequena estrutura na proa e parte do que restava do casario que ora é coberto e ora descobre estavam visíveis e provavelmente assim se mantém já que o nível do topo do banco de areia já havia sido alcançado.

Mergulhador no Cavo Artemidi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

O mergulho no Cavo Artemidi ainda é possível e talvez seja um mergulho ainda fantástico, muito melhor do que em muitos outros naufrágios que recebem ainda uma grande quantidade de visitantes, porém em termos de porcentagem como o que sobrou do navio é tão pouco em relação à imensidão que era, a magia se quebrou e faz alguns anos que nenhuma operadora de mergulho lhe faz uma visita.

Mergulhador no Cavo Artemidi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Em 2008 fiz um mergulho no Cavo Artemidi e no costado de bombordo, protegido por umas chapas caídas encontrei um coral diferente, uma espécie que eu nunca tinha visto antes, fiz fotos fui verificar na literatura … esse foi o primeiro registro de coral-sol (Tubastraea sp.) na baía de Todos os Santos.

Coral-Sol (Tubastraea sp.) fotografado no Cavo Artemidi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

O coral-sol do Cavo Artemidi gerou uma polêmica em 2012, quando menos de 20% do navio ainda não havia sido soterrado pelo banco de Santo Antônio e as visitas ao navio já eram bem raras, em um Workshop destinado a discutir ações para erradicação do coral invasor na baía de Todos os Santos se cogitou a ideia de pleitear com algum empreendimento que estivesse realizando dragagem na baía depositasse o sedimento sobre o naufrágio a fim de erradicar o então mais importante foco de disseminação do coral-sol em nossas águas e incluir como condicionante à este empreendedor custear todos os estudos e operação para o afundamento de outra embarcação em local próximo (opções não faltavam à época).

Coral-Sol (Tubastraea sp.) fotografado no Cavo Artemidi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

A hipótese de uma intervenção no Cavo Artemidi gerou comoção e inclusive uma nota tendenciosa no Jornal A Tarde no mesmo ano do Workshop, assinada por um não mergulhador utilizando-se de um pseudônimo, colocando em cheque a credibilidade dos profissionais que participaram do workshop com a teoria de que estes pesquisadores queriam acabar com o mergulho baiano (oi?).

Mergulhador no Cavo Artemidi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

O resultado das manifestações contrárias a qualquer reação contra o coral-sol no naufrágio do Cavo Artemidi foi que qualquer esforço nesse sentido acabou sendo abortado, o navio acabou soterrado pela própria natureza mas antes disso ele continuou dispersando as larvas do coral-sol para o interior da baía que hoje se encontra em uma situação cuja extinção do coral invasor já não é mais possível, já não se tem o Cavo Artemidi como destino de mergulho (já não se tinha à época) e nenhum novo ponto de mergulho semelhante surgiu ou foi descoberto e hoje qualquer ação para o afundamento de um novo navio não pode ser mais realizada sem antes um estudo mais aprofundado e um plano bem estruturado para o controle da colonização por conta desse coral. Com isso, perdemos todos!

Cavo Artemidi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Talvez seja o momento, após esse período de isolamento social e impedimentos de mergulhos, de fazer uma visita ao navio. Os últimos relatos comentavam que o local se apresentava como um oásis, uma pequena ilha riquíssima em biodiversidade e em um local de água azul, imagina agora após essa calmaria de tráfego de embarcações na baía? E aí, quem topa conhecer ou reconhecer o Cavo Artemidi?

Cavo Artemidi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

FONTES

Brasil Mergulho. Cavo Artemidi [Link]

Carvalho, M. (atualizado em 2019). Naufrágio Cavo Artemidi. Naufrágios do Brasil [LINK]

Lettens, J. 2008. MV Cavo Artemidi [+1980] [Link]

Mayrink, C. Cavo Artemidi. Brasil Mergulho [Link]]

Rezende, E. 2016. No fundo do mar azul. Jornal A Tarde [Link]

Trindade, F.M. 2008. Cavo Artemidi – Um mergulho pra não esquecer. Brasil Mergulho [Link]

Relatório do Inquérito Naval sobre o afundamento do Cavo Artemidi disponível no site do Mergulho Brasil [PDF]

Cavo Artemidi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)
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Autor(es)

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Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância.
Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições.
Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI.
Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

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