Os Recifes Artificiais e os Peixes Recifais

Os recifes artificiais aumentam ou não a produção de peixes nos oceanos? Eles devem ou não ser planejados para esta finalidade?

Por que criar recifes artificiais?

Uma das maiores justificativas para se criar recifes artificias está em um suposto potencial produtivo destes ambientes que atrairiam larvas de organismos incrustantes atraindo outras espécies e aumentando a produtividade na região, produzindo nova biomassa destes organismos, principalmente peixes.

Estudos mais recentes sugerem que esta produção na verdade se resume a uma atração e agregação de espécimes  que originalmente se encontravam nos recifes naturais próximos, mais diluindo a produção dos recifes naturais que aumentando a produção total.

Na primeira imagem vemos um recife natural e sua diversidade de peixes recifais, ao centro um navio é afundado para servir de pesqueiro, para atrair “novos” peixes e aumentar a produtividade pesqueira, porém como pode ser visto na imagem de baixo esse naufrágio não atrai “novos” peixes, ele atrai peixes dos recifes mais próximos e ao invés de aumentar ele dilui a produtividade (Ilustrações: Rodrigo Maia-Nogueira)

Nos últimos anos diversos recifes artificiais foram implantados com o objetivo de compensar a redução dos estoques pesqueiros devido às atividades humanas, em especial atividades de extrativismo como a pesca predatória, tanto artesanal como comercial e muitos destes naufrágios foram monitorados por pesquisadores a fim de compreender como se dá o processo de produção nestes novos ambientes. Alguns destes recifes inclusive apresentaram um número grande de pequenos peixes e algumas vezes inclusive uma biomassa significativa e descobriu-se também que pequenos recifes artificiais mostram maior densidade de peixes, enquanto os grandes suportam maior densidade de biomassa, agregando menos indivíduos. No entanto, estes estudos se limitaram a compreender como se dá a agregação e formação das assembleias de peixes nos recifes artificiais, sem compará-los aos recifes naturais.

Comparando recifes artificiais e naturais

Os estudos realizados compararam assembleias de peixes entre recifes artificiais e naturais tiveram uma abordagem mais funcional e ecológica em vez de simplesmente listar qualitativamente as espécies encontradas, estes estudos também avaliaram e compararam as estruturas tróficas de ambos os recifes permitindo com isto avaliar os efeitos que os recifes artificiais são capazes de aplicar sobre os recifes naturais próximos por meio da modificação do habitat.

Em geral os resultados destes estudos sugerem que um recife artificial utilizando estruturas não naturais como os naufrágios não sustentam uma estrutura trófica semelhante à dos recifes naturais, principalmente considerando os recifes artificiais mais recentes. Em naufrágios seculares, desmantelados, a diferença entre as estruturas tróficas tendem a ser menores, porém ainda assim um recife artificial com este tipo de estrutura não sustenta a mesma diversidade e estrutura trófica de um recife natural. A questão é que ao longo do tempo, as consequências da modificação do habitat e do compartilhamento de espécies tende a ser prejudicial de forma que não se justifica aguardar uma estrutura artificial desmoronar e se tornar secular para testar se há ou não ganho na produção neste momento.

Quatingas (Haemulon aurolineatum) fotografadas no sítio dos naufrágios do Germânia e Bretagne no Parque Marinho da Barra (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Estes estudos também registraram que espécies de hábito planctívoro, como a quatinga (Haemulon aurolineatum), apesar de comuns em ambos os recifes tendem a ser ainda mais abundantes nos naufrágios. Agregação de plâncton por conta das alterações nas dinâmicas naturais de correntes e de ondas em decorrência da instalação destes recifes artificias sem um planejamento apropriado, possivelmente explica a abundância de plânctivoros. Já as espécies de herbívoros errantes como os budiões dos gêneros Scarus e Sparisoma tendem a ser muito mais abundantes nos recifes naturais do que nos naufrágios.

Budião-papagaio (Sparisoma amplum) com coloração terminal, um dos grandes herbívoros errantes fotografado no recife das Timbebas, Parque Nacional Marinho dos Abrolhos (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Apesar dos estudos apontarem que os espécimes maiores são mais comuns nos recifes naturais que nos recifes artificiais, no que diz respeito às espécies carnívoras de grande porte, elas tendem a ser mais frequentes em naufrágios recentes que apresentem grande disponibilidade de abrigos, refúgios, fendas e aberturas e tendem a reduzir a medida que o mesmo desmorone. Acredita-se que estes grandes carnívoros migrem dos recifes naturais adjacentes para os naufrágios por conta da agregação de planctívoros, potenciais presas e que ao longo do tempo irão retornar aos recifes naturais.

Estrutura dominante no topo recifal do recife artificial do Quebra-mar Norte (baía de Todos os santos) formado por blocos de rochas de grande tamanho – menor complexidade (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Os recifes artificiais que se utilizam de materiais naturais, como as rochas de um molhe, desde que as pedras sejam fragmentadas em blocos pequenos, provavelmente irão apresentar complexidade e rugosidade semelhante a um recife natural próximo, porém da mesma forma que para os naufrágios, a composição do recife artificial utilizando material natural se baseia no compartilhamento de espécimes com os recifes naturais próximos.

Estrutura dominante no recife artificial do molhe da Bahia Marina (baía de Todos os santos) formado por blocos de rochas de menor tamanho – maior complexidade (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Bentos em substratos artificiais

Alguns estudos apontam que nos naufrágios a diferença do substrato interfere consideravelmente na composição bentônica entre os recifes, com predominância de briozoários, octocorais, corais mole e esponjas nos naufrágios enquanto que nos recifes artificiais com material natural predominam os rodolitos e os corais, composição bentônica mais próxima à dos recifes naturais. Esta diferença da composição bentônica influencia na diferença da complexidade e rugosidade de ambos os recifes refletindo também na diferenciação da composição trófica destes ambientes.

Octo-coral (Carijoa riisei) um dos organismos bentônicos sésseis dominantes nos recifes artificiais fotografado no naufrágio do Blackadder onde é bastante comum (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Necessidade de planejamento

Programas de recifes artificiais devem considerar cuidadosamente o ambiente do local onde serão instalados uma vez que estes afetarão a composição da biota marinha. Os naufrágios podem ter grande importância para o desenvolvimento das atividades de turismo de mergulho, no entanto aparentemente são pouco eficientes no que diz respeito a aumentar a produtividade pesqueira, podendo inclusive representar danos aos estoques atuais e consequentemente prejuízos à pesca.

Além de escolher os pontos para a instalação de recifes artificiais com base em estudos e diagnósticos de viabilidade, uma vez implantados todos estes recifes, sejam piers, naufrágios, molhes ou qualquer outro tipo de estrutura precisa ser monitorados através de  programas de monitoramento de longo prazo utilizando os recifes naturais mais próximos como ponto controle.

FONTES

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Autor(es)

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Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância.
Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições.
Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI.
Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

About Rodrigo Maia-Nogueira

Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância. Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições. Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI. Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

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