O Impacto do Mergulho de Recreação e Turismo no Meio Ambiente

O mergulho de turismo e recreação causa impacto negativo no meio ambiente? Sim, porém existem formas de mitigar os danos e também causa impactos positivos, além de ser uma excelente forma de envolver a sociedade na conservação dos ambientes aquáticos.

O mergulho é um esporte que provoca na maioria das pessoas que o praticam um sentimento conservacionista, uma preocupação maior com o meio ambiente marinho ou lacustre (a depender de onde ocorra a prática do esporte) e, por isso, se tem uma falsa impressão de que o mergulho recreativo é uma atividade que não causa impacto relevante no meio ambiente.

Isso até poderia ser verdade, porém, estudos realizados na Tailândia, na Polinésia Francesa, no Mar Vermelho (em especial no Egito), no Caribe (incluindo o mar da Flórida), no Brasil e na Malásia, que avaliaram durante as três últimas décadas o impacto da atividade de turismo de mergulho e as suas implicações nos recifes de coral, constataram que os principais impactos, como a quebra de organismos (em especial os corais), branqueamento dos corais, morte de organismos e afugentamento de peixes com funções ecológicas importantes (principalmente os grandes herbívoros), são também decorrentes de um mau posicionamento dos mergulhadores (o famoso TRIM), uso de batida de perna inadequada, natação muito próxima ao substrato ou aos organismos, falha no ajuste das tiras e mangueiras do equipamento, dentre outros, todos relacionados tanto à falta de experiência quanto ao excesso confiança do mergulhador.

Mergulhador com um bom TRIM, equipamento bem ajustado e mantendo uma distância conservadora em relação ao substrato (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Um posicionamento errado do corpo na água, na diagonal ou mesmo na vertical, associado às batidas de pernas da natação levantam sedimento fino que acabam por se depositar e se acumular sobre os organismos bentônicos. A depender do tamanho do organismo e da quantidade de sedimento em suspensão, pode ocorrer até mesmo o aterramento ou sufocamento de colônias.

Os esbarrões de mangueiras, instrumentos ou mesmo do corpo de um mergulhador com deficiência no controle da flutuabilidade em organismos frágeis como os corais, as gorgônias e os briozoários podem danificar os seus tecidos por conta da abrasão ou mesmo quebrar as colônias mais finas e frágeis como os corais-de-fogo (Millepora spp.).

Mergulhador com um bom TRIM e equipamento bem ajustado (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

O arrasto de manômetros e de um octopus mau ajustados ao colete, além de qualquer outro equipamento pendurado aos D-Rings do colete também levantam suspensão e impactam as colônias bentônicas, além de quebrar colônias de corais, ou mesmo arrancar Tunicados (Ascídias), principalmente das espécies coloniais, e Esponjas.

Apesar de não ser recomendado o uso de protetor solar, especialmente no rosto, por causa da incompatibilidade com os equipamentos de mergulho, não é raro que pessoas desavisadas já cheguem utilizando o protetor solar no rosto e corpo para fazer um batismo. Além de embaçar a máscara de mergulho e sujar as roupas de Neoprene alguns protetores solares possuem elementos químicos que provocam reações nos corais, dentre elas a dissociação das algas Zooxantelas, responsáveis pela fotossíntese e parte da nutrição dos corais, resultando em branqueamento e consequentemente na morte destes organismos.

Mergulhador com um bom TRIM, equipamento bem ajustado, mantendo uma distância conservadora em relação ao substrato e utilizando batida de perna com pés elevados (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Há ainda o uso excessivo de determinado ponto e o desrespeito à sua capacidade de suporte, impactos que podem ser evitados pelas operadoras de mergulho a partir da adoção de medidas como a alternância dos sítios de mergulho nas programações de saídas, inclusive de forma articulada entre as operadoras, para evitar o excesso de mergulhadores e uso dos sítios.   

Não existe uma solução mágica e nem a ideia é dificultar a atividade de mergulho, uma vez que o seu potencial educativo em relação ao meio ambiente é muito elevado, tornando-se uma importante ferramenta de conscientização.

Mergulhador com um bom TRIM, mantendo uma distância conservadora em relação ao substrato e utilizando batida de perna com pés elevados (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Dentre as medidas que podem ser adotadas para minimizar os fatores estressores e impactantes, além de um rodízio na visita aos sítios e do respeito à capacidade de suporte, algumas das que mais são apontadas pelos pesquisadores são:

  1. O acompanhamento mais de perto de cada mergulhador inexperiente, sendo mais conservador que os standards da WRSTC e da maioria das certificadoras e não excedendo o limite de um mergulhador por Instrutor, Assistente de Instrutor ou Divemaster durante o batismo, prática que além de reduzir os impactos da atividade é considerada a mais segura na condução de mergulhadores em batismo. Esta prática já é adotada como regra por algumas das principais operadoras de mergulho de Salvador;
  2. Um ajuste fino no posicionamento das sobras de fitas dos coletes e nas mangueiras do equipamento SCUBA, evitando que fiquem penduradas e possam tocar nos organismos ou mesmo arrastar no substrato levantando sedimentos;
  3. Uma natação à meia água, mantendo uma distância segura dos organismos e do substrato;
  4. Adoção nos cursos de mergulho, mesmo no básico, e nas microaulas antes de cada batismo, a natação do tipo frog kick, com os pés elevados para os alunos (e obviamente para os Instrutores, Assistentes de Instrutores e Divemasters também);
  5. Adoção de um briefing pré-mergulho, que além de abordarem os cuidados com a técnica, apresentem a descrição do sitio de mergulho e o perfil/planejamento do mergulho, bem como provoquem nos mergulhadores o sentimento de responsabilidade sobre os impactos da sua ação no meio.
Muitas informações e imagens importantes para a conservação se deram através de mergulhadores recreativos (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

O mergulho não é uma atividade que devemos condenar e que pode ser considerada um problema para o meio ambiente, ao contrário, os mergulhadores são considerados os embaixadores do meio ambiente marinho e como estão frequentemente dentro d´água, além de adotarem uma conduta mais conservadora em relação aos fatores que estão associados aos impactos conhecidos, ainda podem contribuir de diversas formas com a conservação, compartilhando imagens e informações com a comunidade científica, participando de ações socioambientais como as ações de limpeza de praias ou mesmo atuando como cidadão cientista associado a diversos projetos.

Foto: Roberto Costa Pinto

Fontes

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About Rodrigo Maia-Nogueira

Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância. Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições. Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI. Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

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