Naufrágio do Maraldi

Popularmente conhecido por “Primeiro Navio” por ser o primeiro naufrágio de três em relação à distancia atá a praia no Parque Marinho da barra, o Maraldi é um dos naufrágios mais mergulhados da cidade, frequentado tanto por mergulhadores com SCUBA quanto por apneistas e outros mergulhadores livres, seja através das embarcações das operadoras de mergulho locais, seja nadando à partir da praia.

Destroços do Naufrágio do Maraldi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Dados do Ponto de mergulho

  • Localização: Parque Marinho da Barra, na enseada do Farol da Barra
    • Coordenadas
      • Latitude: -13.008715º
      • Longitude: -38.534282º
  • Profundidades
    • Mínima: 3m
    • Máxima: 5m
  • Visibilidade média: em média superior a 15m na horizontal na maré morta (luas crescente e minguante), e aproximadamente 7m na horizontal na maré grande (luas nova e cheia)
  • Distância da costa: 190m
  • Tempo de navegação à partir do Porto de Salvador: aproximadamente 20 minutos
  • Nível mínimo de certificação: Snorkeling e Básico (Open Water)
  • OBS.: Por estar na baía de Todos os Santos este ponto de mergulho sofre com ações das correntezas de maré onde na vazante a correnteza tende a ser mais forte e jogar para fora da baía, já na maré de enchente as correntezas são mais brandas e jogam para dentro da baía. O ideal é mergulhar nos períodos de lua crescente e minguante na parada de vazante e durante a maré de enchente, porém é possível mergulhar neste naufrágio em qualquer maré e em qualquer lua.
Localização do Naufrágio do Maraldi (fonte: Google Earth)
Embarcação “Grauçá” da operadora de mergulho Shark Dive parada exatamente sobre o naufrágio. Dá para ter noção de como este naufrágio é perto da costa (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Dados do Naufrágio

  • Nome da embarcação: SS Maraldi
  • Nacionalidade da embarcação: Inglesa
  • Estaleiro: Whitehaven Shipbuilding Co. Ltd.
  • Ano de construção: 1873
  • Dimensões
    • Comprimento: 67m
    • Boca: 8,6m
    • Calado: desconhecido
    • Tonelagem bruta: 1.002 toneladas
  • Proprietário: W.J. Lamport & G. Holt, Liverpool, Brazil & River Plate Steam Navigation Co.
  • Tipo de embarcação: Cargueiro
  • Material do casco: Metal
  • Propulsão da embarcação: Mista (vela e vapor)
  • Motorização: Motor a vapor do tipo Compound Vertical Inverted Direct Action de dois cilindros 95HP construído na oficina de J. Jones & Sons de Liverpool
  • Data do afundamento: 18 de fevereiro de 1875
  • Motivo do afundamento: Encalhe
  • Situação atual de conservação: Desmantelado
Navio semelhante ao Maraldi (Fonte: panfleto da Lamport & Holt Line of Steamers com o roteiro dos sus navios no litoral brasileiro no final do Séc XIV)
Destroços do Naufrágio do Maraldi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

História do Naufrágio

Na noite do dia 28 de fevereiro de 1875, mais precisamente às 21:00h, o vapor inglês Maraldi que vinha de Buenos Aires (Argentina) com destino a Amsterdã (Holanda) transportando uma carga de lã e couro, ao tentar entrar na baía de Todos os Santos foi surpreendido pelas fortes correntezas locais que o fizeram encalhar nas pedras rasas da enseada entre o forte de Santo Antônio (Farol da Barra) e o forte de Santa Maria (Porto da Barra) a menos de 200m da praia.

Destroços do Naufrágio do Maraldi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Descrição do Ponto de Mergulho

Além dos trechos onde é possível ver o cavername e partes do costado do navio ainda é possível identificar a única caldeira da embarcação, parte do volante do leme e da popa, além de cabeços de amarração e bigotas.

Caldeira do Naufrágio do Maraldi vista de cima (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

A caldeira que antes era possível ser atravessada de um lado ao outro sofreu alguns desmoronamentos recentemente e portanto esta atividade não é mais recomendada.

Caldeira do Naufrágio do Maraldi vista do lado (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Os destroços estão espalhados parte sobre um recife costeiro e parte na areia.

Croqui do Naufrágio do Maraldi, situação atual (novembro de 2019) (Desenho: Rodrigo Maia-Nogueira)

Os cavernames e os costados, além da caldeira, se situam entre os recifes e a areia e os destroços de estruturas da popa distante alguns metros dos demais destroços e situados completamente na areia,

Parte das estruturas da popa do Naufrágio do Maraldi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Biodiversidade

Tanto a biota aquática do Naufrágio do Maraldi quanto a do Naufrágio do Blackadder vem sendo estudadas a aproximadamente 15 anos pelo Núcleo de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática), instituição associada à EcobioGeo e os seus resultados estão sendo preparados para serem apresentados neste blog em publicações distintas, vale à pena esperar.

Colônias de Baba-de-boi (Palythoa caribaeorum) cobrindo parte do costado do Naufrágio do Maraldi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Boa parte os destroços, especialmente no cavername e em partes do costado estão cobertos por colônias de Baba-de-boi (Palythoa caribaeorum), além de diversas espécies de esponjas, tunicados, algumas colônias coral e crinoides. Dentre os corais um destaque para o coral invasor Xênia-azul (Sansibia sp.) que esta cobrindo uma área grande ao lado da caldeira do Maraldi.

Colônias do coral invasor Xênia-azul (Sansibia sp.) se alastrando nos recifes ao lado da caldeira do Naufrágio do Maraldi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Dentro da caldeira é possível ver cardumes de barrigudinhos (Pempheres schomburgki) e a noite não é raro encontra uma lagosta (Panulirus spp.) por lá também. Já ao redor é comum observar barbeiros (Acanthurus spp), borboletas (Chaetodon striatus), cromis (Chromys multilineata), macaquinhos (Ophioblennius trinitatis), quatingas (Haemulon aurolineatum), jovens rufus (Bodianus rufus), budiõezinhos (Halichoeres spp.) e muitos outros peixes.

Macaquinho (Ophioblennius trinitatis) fotografado sobre a caldeira do Naufrágio do Maraldi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)
Borboleta (Chaetodon striatus) fotografada sobre a caldeira do Naufrágio do Maraldi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)
Filhotes do Barrigudinho (Pempheres schomburgki) fotografados ao lado da caldeira do Naufrágio do Maraldi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Ocasionalmente algumas raias do gênero Hypanus spp. são observadas no naufrágio, desde exemplares pequenos da raia-de-olhos-grandes (Hypanus marianae) como raias maiores como a raia-do-sul (Hypanus americanus).

Enorme Raia-do-sul (Hypanus americanus) registrada ao lado dos destroços do Naufrágio do Maraldi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Tartarugas-marinhas, especialmente das espécies verde (Chelonia midas) e em menor frequência a de pente (Eretmochelys imbricata) também são visitantes deste naufrágio.

Sargentinho (Abudefduf saxatilis) na coloração de reprodução registrado no Naufrágio do Maraldi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Polvos (Octopus vulgaris), caranguejos-aranha (Stenorhynchus seticornis) e uma infinidade de outras espécies são observadas neste que um dos pontos mais biodiversos de Salvador.

Um Barbeiro-azul (Acanthurus coeruleous) e algumas Biquaras (Haemulon parra) fotografados no interior da caldeira do Naufrágio do Maraldi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Considerações

Apesar de raso e muitas vezes por isso não ser um atrativo para aqueles que pretendem fazer uma saída de mergulho com uma operadora, este é um mergulho que vale muito à pena, na minha opinião está entre os melhores pontos de mergulho da cidade devido a acessibilidade e à riquíssima biodiversidade.

Lateral da caldeira do Naufrágio do Maraldi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Quem ainda não o conhece, vale à pena conhecer!!!

Destroços do Naufrágio do Maraldi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Fontes

Carvalho, M. Naufrágios do Brasil: Naufrágio Maraldi. [Link]

Torres, R. 2016. Projeto Observabaía: Patrimônio Cultural Subaquático da Baía de Todos os Santos. Relatório Parcial 2015. Navigator: Subsídios para a história marítima do Brasil, 12(23):140-153. [PDF]

Wrecksite.eu. 2012. SS MAraldi (+1875). [Link]

Parte do cavername do Naufrágio do Maraldi (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

E você, já mergulhou neste naufrágio? Conte-nos o que achou dele ou o relato de algum dos seus mergulhos neste ponto!!

About Rodrigo Maia-Nogueira

Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância. Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições. Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI. Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

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