Os Poliquetas de-fogo, espanador e espiral

A Biota Aquática da baía de Todos os Santos e costa Atlântica de Salvador, Bahia

Poliqueta-de-fogo (Hermodice carunculata)

  • Classe: Polychaeta
  • Ordem: Amphinomida
  • Família: Amphinomidae
Poliqueta-de-fogo (Hermodice carunculata) (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

DESCRIÇÃO

Os poliquetas-de-fogo possuem o corpo alongado apresentando mais de 100 segmentos delineados por finas listras. A cabeça do poliqueta-de-fogo é identificada pela presença de uma estrutura denominada carúnculo.

Ao longo de toda a lateral do corpo o poliqueta-de-fogo apresenta fileiras de tufos de cerdas brancas, finas e afiadas com um canal fino contendo uma substância neurotóxica, e ao menor contato penetram facilmente a pele, onde se rompem causando na vitima uma irritação bastante ardente dolorosa que pode persistir por vários dias, mecanismo de defesa que explica o nome popular da espécie.

Intercalados entre os tufos de cerdas brancas a poliqueta-de-fogo possui tufos de cerdas vermelhas ou alaranjadas que são as suas branquias, por onde elas respiram.

Cada segmento do corpo da poliqueta-de-fogo apresenta um par de pés achatados parecidos com lóbulos carnudos denominados parapodios.

Estes pés além de serem utilizados para a locomoção, são também utilizados para nadar e escavar.

As poliquetas-de-fogo podem atingir até 35cm de comprimento total.

Raro registro de “agregação” de poliquetas-de-fogo (Hermodice carunculata) (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

BIOLOGIA

Apesar de ser possível encontrar mais de um indivíduo em um mesmo local ou muito próximos um do outros, os poliquetas-de-fogo são animais solitários com atividade tanto diurna quanto noturna passando longos períodos caçando pequenos crustáceos, anêmonas e equinodermos que compõem a sua dieta, assim como os corais, seus itens preferenciais, e dentre estes especialmente os hidrocorais ramificados como os corais-de-fogo (Millepora spp.) os quais eles envolvem alguns centímetros em sua faringe inflada e durante 5 a 10 minutos removem o tecido deixando só o esqueleto no local.

Poliqueta-de-fogo (Hermodice carunculata) se alimentando de um coral-de-fogo (Millepora sp.) (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Um poliqueta-de-fogo já foi observado se alimentando de um pólipo do coral invasor (Tubastraea sp.) nos Cascos, na saída da baía de Todos os Santos.

Alguns exemplares de poliquetas-de-fogo já foram observados se alimentando de animais mortos.

A reprodução do poliqueta-de-fogo pode ser tanto sexuada quanto assexuada.

A reprodução assexuada se dá devido a capacidade de gerar novas estruturas de cabeça e cauda caso seja fragmentada, seja em quantos fragmentos ela seja dividida.

A reprodução sexuada tem como característica a bioluminescência, quando o corpo da fêmea fica com um brilho fosforescente esverdeado para atrair os machos que por sua vez passa a emitir luzes intermitentes em sua direção enquanto se próxima um do outro liberando gametas na água que se combinam para que sejam fecundadas, estes eventos de desova ocorre geralmente entre 2 e 5 dias após a lua cheia.

Poliqueta-de-fogo (Hermodice carunculata) se alimentando de tecidos de um cora-cérebro (Mussismilia hispida) (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

DISTRIBUIÇÃO

Os poliquetas-de-fogo são animais abundantes em ambientes recifais, seja em recifes biogênicos ou costões rochosos, além de bancos de algas marinhas ou mesmo em locais de substrato areno-lodoso, ocorrendo desde a superfície, em poças, no topo de recifes quanto na parede, na base ou na areia do fundo tendo sido registrado a até 60m de profundidade.

Estes poliquetas podem ser encontrados em todo o Atlântico tropical, além do Mar Vermelho, do Indo-Pacífico e do Mar Mediterrâneo. Estudos realizados em 2011 sugerem através de pequenas diferenças morfológicas entre populações do Caribe, do Atlântico e do Mediterrâneo que existem subespécies de poliquetas-de-fogo.

Na região da baía de Todos os Santos e costa Atlântica de Salvador o poliqueta-de-fogo pode ser encontrado em todos os pontos de mergulho conhecidos atualmente, sendo o naufrágio do Blackadder, o Quebra-mar norte, o Yacht Clube da Bahia, Marco Polo, o Porto da Barra e o Parque Marinho da Barra os pontos onde elas podem ser observadas como maior facilidade.

Poliqueta-de-fogo (Hermodice carunculata) se alimentando do coral mole baba-de-boi (Palythoa caribaeorum) (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

STATUS E CONSERVAÇÃO

A poliqueta-de-fogo não se encontra sob nenhuma categoria de ameaça seja na lista oficial do Ministério do Meio Ambiente ou da IUCN.

Há um certo interesse dessa espécie para o aquarismo mundial apesar de não ser comum a sua coleta no Brasil.

Poliqueta-de-fogo (Hermodice carunculata) se alimentando do coral mole baba-de-boi (Palythoa caribaeorum) (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

CUIDADOS

Como já vimos na descrição da espécie a poliqueta-de-fogo possui cerdas que ao menor contato podem causar dor e reações adversas no mergulhador, porém estes acidentes são muito raros uma vez que o animal é muito dócil e não se assusta com a presença do mergulhador, só inserindo as cerdas e inoculando sua toxina caso seja tocado (e uma das principais regras do mergulho é NÃO TOCAR EM NADA).

Porém, em caso de acidentes não é necessário se desesperar, obviamente a dor local vai inviabilizar a continuidade do mergulho. Utilize o quanto anetes fitas adesivas aplicadas sobre o local afetado (seco de preferência) para remover as cerdas (como em uma depilação). O tratamento da dor é à base de analgésicos (como o Ibuprofeno por exemplo) e caso apresente alguma reação alérgica, tome o antialérgico ao qual já está habituado a tomar e procure um médico. A cultura popular diz que Álcool isopropílico e vinagre ajudam a aliviar a dor, porém estes apesar de muito populares pela sua eficiência são tratamentos alternativos e caso se opte por fazê-los, estes devem ser tratados como esforços adicionais sem a exclusão de outros métodos.

Acidentes são mais comum no aquarismo, no manuseio feito para retirar o introduzir o poliqueta-de-fogo no aquário.

Dentre os sintomas ja descritos o local inchar e ficar avermelhado, podendo em alguns casos ficar dormente mesmo após cessar a dor. Tonturas e náuseas são menos comuns, porém a depender da quantidade da neurotoxina que atinja a corrente sanguinea estas reações podem se tornar mais comuns.

Poliqueta-de-fogo (Hermodice carunculata) se alimentando do coral mole baba-de-boi (Palythoa caribaeorum) (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

OS Annelidas

Quem são os poliquetas e o que são os annelidas?

Os poliquetas são animais que pertencem ao mesmo filo dos das minhocas (Oligochaeta) e outros vermes segmentados terrestres como as sanguessugas (Hirudinea).

As principais características que estes animais tem em comum são o corpo segmentado em anéis (dai o nome do filo Annelida), a capacidade de se regenerar e a reprodução tanto sexuada quanto assexuada.

As principais características que diferenciam os poliquetas dos demais anelídeos é ter pelo menos uma parte do corpo coberto por muitas cerdas e o fato de que estas vivem em ambiente aquático marinho.

Outras espécies de poliquetas comuns na baía de Todos os santos

Além das poliquetas-de-fogo que pertencem à ordem Amphinomida, duas outras famílias de poliquetas da ordem Sabellida são comuns na baía de Todos os Santos, são elas os exemplares da família Sabellidae e os exemplares da família Serpulidae.

Poliqueta-espanador (Família Sabellidae) (Foto: Roberto costa Pinto)

Família Sabellidae

Conhecidos por poliquetas-espanador os poliquetas destas família secretam um tubo de muco agregado a sedimentos marinhos onde se escondem deixando expostos apenas a cabeça e a coroa branquial em forma de espanador.

As espécies desta família são sedentárias filtradoras que capturam plâncton com as estruturas da sua coroa branquial que serve tanto para a respiração quanto para a alimentação.

A coroa branquial desta espécie pode apresentar uma grande variedade de cores, tamanhos e mesmo de formatos, porém sempre lembrando um espanador.

Os poliquetas desta família não oferecem risco aos mergulhadores.

Poliqueta-espiral (Família Serpulidae) (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Família Serpulidae

Conhecidos por poliquetas-espirais ou por poliquetas-árvore-de-natal devido ao formato da sua coroa branquial espiral cônico com base mais larga e topo mais afilado.

As espécies desta família são sedentárias e secretam um tubo de carbonato de cálcio onde permanecem imóveis apenas com a cabeça e a coroa branquia exposta, mas que se escondem no tubo à menor pertubação.

A cora branquial destes animais é o órgão responsável pela respiração e pela alimentação do tipo filtradora. A cora pode apresentar uma infinidade de cores e tamanhos.

Os poliquetas desta família não oferecem risco aos mergulhadores.

Poliqueta-espiral (Família Serpulidae) (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)

Distribuição dos Poliquetas da Ordem Sabellida (Familias Sabellidae e Serpulidae)

Tanto os poliquetas da família Sabellidae quanto Serpulidae possuem uma ampla distribuição ocorrendo em diversos ambientes e tanto em baixas profundidades como em zonas afóticas profundas, alguns inclusive em zonas abissais, dos oceanos e mares de todo o planeta.

Na costa Atlântica de Salvador e interior da baía de Todos os Santos os poliquetas da ordem Sabellida podem ser encontrado em todos os ambientes, especialmente nos ambientes recifais, em profundidades que variam desde menos de 1m nas poças de maré das Piscinas da Barra ou sobre o costão rochoso nas praias onde estes recifes ficam expostos na maré baixa quanto mais de 40m nos pontos mais profundos de mergulho.

Poliqueta-espiral (Família Serpulidae) (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)
Poliqueta-espiral (Família Serpulidae) (Foto: Rodrigo Maia-Nogueira)
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Autor(es)

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Mergulhador e apaixonado pelos oceanos desde a infância.
Desde a década de 1990 está envolvido em ações e pesquisas relacionadas com a biota aquática, tendo sido coordenador de resgate do Centro de Resgate de Mamíferos Aquáticos (CRMA) do Instituto Mamíferos Aquáticos (IMA) e fundador do Centro de Pesquisa e Conservação dos Ecossistemas Aquáticos (Biota Aquática) e do EcoBioGeo Meio Ambiente & Mergulho Científico, e ao longo dos anos participou de projetos de pesquisa e de consultoria na ambiental em parceria com diversas instituições.
Também atua como instrutor de mergulho SDI e PADI.
Tem como objetivo, além de produzir informação de qualidade fomentar o reconhecimento e a qualificação dos mergulhadores científicos.

2 thoughts on “Os Poliquetas de-fogo, espanador e espiral

  1. Show! Sempre tive curiosidade em saber mais sobre esses animais.
    Estas últimas são chamadas na língua inglesa de “Christmas tree worm”?
    Obrigado amigo

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